SÃO PAULO — Empresários e executivos de diferentes setores atribuíram a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno a uma combinação de fatores políticos, econômicos e institucionais. Para os entrevistados, o resultado não se explica apenas pelo endividamento das famílias.
Com 99,59% das urnas apuradas, Flávio tinha 47,12% dos votos válidos, contra 45,06% de Lula. A chegada do filho de Jair Bolsonaro ao segundo turno à frente do presidente representa uma vantagem que o ex-presidente não obteve em 2022. Naquela eleição, Jair Bolsonaro terminou a primeira etapa com 43,2%, enquanto Lula alcançou 48,2%.
Desgaste político e atuação das cortes
Parte dos empresários citou o desgaste do governo do PT e decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como elementos que influenciaram a disputa. José Olympio Pereira, que comandou os bancos Credit Suisse e Safra e apoiou Renan Santos (Missão) no primeiro turno, interpretou o resultado como uma demonstração de cansaço com o PT. “A sociedade brasileira deu um recado claríssimo de que não aguenta mais o Lula e que quer uma mudança”, afirmou.
Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho do Grupo Multi, disse que Flávio adotou uma estratégia diferente da usada por Jair Bolsonaro. Na avaliação dele, o candidato evitou conflitos com instituições e concentrou a campanha no antipetismo, atraindo eleitores de centro-direita que apoiavam Caiado, Zema e outros candidatos.
Ostrowiecki também relacionou o desempenho de Flávio a escândalos envolvendo o STF e à percepção de que a maioria dos ministros da corte foi indicada por governos do PT. Para ele, esse quadro reforçou a ideia de que o sistema precisava de uma mudança.
A atuação das cortes entrou no debate eleitoral após o cancelamento de um debate presidencial da TV Globo, três dias antes da votação. Estela Aranha, do TSE, proibiu a emissora de mostrar o púlpito vazio de Lula, que não iria ao encontro. Depois, Gilmar Mendes, do STF, determinou a inclusão de Renan Santos, contrariando os critérios definidos pela emissora. Flávio desistiu de participar após as decisões, e o programa foi cancelado.
Ricardo Lacerda, sócio-fundador e CEO do BR Partners, afirmou que houve uma reação aos supostos abusos do STF. Ele também mencionou o caso de publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. André Mendonça havia determinado a retirada de conteúdos considerados falsos sobre uma possível mudança no título de padroeira do Brasil. Flávio Dino anulou parte da decisão e liberou publicações sobre o tema.
Economia e percepção dos eleitores
Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Jubarte Capital, apontou a preocupação das famílias com a própria situação financeira. Embora a taxa de desemprego tenha ficado em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, 82% das famílias tinham dívidas a vencer naquele mês.
Para Figueiredo, Flávio foi percebido como mais moderado que o pai e teve um programa mais bem recebido. Ele também avaliou que a gestão Lula não correspondeu às expectativas em áreas consideradas importantes pelos eleitores, como segurança e corrupção.
Em pesquisa realizada em meados de setembro, 47% dos eleitores disseram que a crise no STF influenciaria a escolha para presidente. Quando questionados sobre quem seria prejudicado pelo episódio, 38% mencionaram Lula e 31%, Flávio.
Rogelio Golfarb, CEO da Zag Work, afirmou que o resultado sinaliza uma mudança política mais ampla, com maior presença de uma abordagem liberal e à direita. Outro executivo, presidente de uma multinacional que não quis se identificar, também associou o crescimento de Flávio ao desgaste de Lula e do PT e disse que o presidente teve dificuldade de perceber esse movimento por ter se isolado durante o terceiro mandato.



