O Brasil chega às eleições de 2026 com desemprego e renda em níveis recordes, mas também com a maior proporção de famílias endividadas desde o início da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O primeiro turno ocorre neste domingo (4), em um cenário econômico de sinais contrastantes.
O levantamento da CNC mostra que 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto. O percentual considera compromissos como cartão de crédito, cheque especial, carnês e empréstimos. Entre os meses de agosto dos anos de eleições presidenciais anteriores, o índice foi de 59,1% em 2010, 63,6% em 2014, 60,7% em 2018 e 79% em 2022.
A proporção de famílias com contas atrasadas chegou a 29,9% no último mês de agosto. O maior nível da série foi registrado em setembro e outubro do ano passado, com 30,5%. Em agosto de 2022, o índice era de 29,6%.
Em agosto de 2026, 12,5% das famílias disseram não ter condições de pagar as contas em atraso. O resultado ficou acima dos 10,8% registrados quatro anos atrás. O pico desse indicador ocorreu em outubro de 2025, quando alcançou 13,2%.
Juros e mercado de trabalho
A taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano. Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, o nível elevado dos juros ajuda a explicar a dificuldade de reorganização financeira das famílias. “As famílias não estão se endividando para consumir”, afirmou. Segundo ele, o peso está relacionado ao acúmulo de dívidas passadas.
Apesar da pressão sobre os orçamentos, o mercado de trabalho apresenta indicadores positivos. A taxa de desemprego ficou em 5,3% nos três meses até agosto, o menor nível para esse trimestre na série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012.
O número de pessoas de 14 anos ou mais ocupadas, em trabalhos formais ou informais, chegou a 103,5 milhões até agosto, maior marca registrada pelo IBGE. A renda média da população ocupada foi de R$ 3.777 por mês, também recorde para o trimestre encerrado em agosto.
Disputa eleitoral
Os contrastes econômicos aparecem na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que aparecem como favoritos nas pesquisas antes do primeiro turno. Lula destacou os resultados de emprego e renda, enquanto o senador chamou atenção para o endividamento e o custo de vida.
Bentes avalia que a permanência da população no mercado de trabalho e ganhos de consumo e qualidade de vida tendem a favorecer a reeleição de um governante. Ao mesmo tempo, a combinação de emprego e renda melhores com endividamento elevado traz incerteza para as projeções eleitorais.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera que o cenário geral ainda favorece o governo Lula na busca pela reeleição, citando a queda do desemprego e sinais recentes de trégua da inflação. Para ele, a inadimplência é um fator negativo, em razão da combinação entre juros altos, população endividada e o efeito das bets.
A liberação de crédito continua crescendo, mas ocorre em um ambiente de maior pressão sobre os orçamentos e com linhas mais caras, segundo análise do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. Os pesquisadores Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França afirmam que o endividamento, o comprometimento da renda e a inadimplência bancária estão em níveis recordes ou próximos disso, com impacto maior entre as famílias de menor renda.
A técnica em enfermagem Luana Dutra Gomes, 37, relata que enfrentou dificuldades após um empréstimo vinculado ao salário e operações de crédito fraudulentas feitas em seu nome no ano passado. Ela afirma que vendeu pertences, faz trabalhos informais e recebe doações de alimentos enquanto tenta resolver o caso na Justiça.


