A greve nacional dos bancários da Caixa Econômica Federal, realizada em setembro e com duração de 20 dias, atrasou repasses para incorporadoras voltadas ao público de baixa renda. O efeito apareceu nos resultados do terceiro trimestre de 2026 e atingiu empresas dependentes do Minha Casa, Minha Vida para transformar vendas em recursos para construção.
Na MRV, o impacto negativo estimado no fluxo de caixa da operação brasileira de baixa renda foi de cerca de R$ 80 milhões. Na Cury, os repasses de recebíveis totalizaram R$ 1,3 bilhão no trimestre, uma queda de 13% em relação ao mesmo período do ano passado, conforme relatório do BTG Pactual.
O atraso ocorre porque o dinheiro só é transferido às incorporadoras após uma sequência de etapas: análise de crédito, conferência de documentos, vistoria de engenharia e assinatura dos contratos. A demora pode aumentar o intervalo entre a venda e a entrada dos recursos, pressionando o capital de giro das empresas.
Dependência da Caixa
A exposição do setor ao banco federal está relacionada ao peso do Minha Casa, Minha Vida. O programa respondeu por 58% dos lançamentos e 51% das vendas no segundo trimestre, segundo os analistas Ygor Altero e João Rodrigues, da XP Investimentos.
Antes do fim da paralisação, a XP havia apontado a execução dos financiamentos como um dos principais pontos de atenção para as incorporadoras de baixa renda. Dados do segundo trimestre registravam 21,8 mil unidades repassadas e mediana de 165,5 dias para o recebimento.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção informou que empresas associadas relataram demora maior em algumas etapas e represamento de processos. Clausens Duarte, vice-presidente de Habitação de Interesse Social da entidade, disse que ainda não há dados consolidados para medir o impacto total da greve. Um processo sem pendências relevantes costuma levar até 20 dias entre o encaminhamento e a assinatura do contrato, mas o prazo varia conforme o caso e não representa uma média oficial da Caixa.
“Os atrasos na conclusão dos financiamentos podem afetar tanto o fluxo de caixa das empresas, especialmente as menores, quanto as famílias que aguardam a finalização da compra do imóvel”, afirmou Duarte.
Cancelamentos no trimestre
A paralisação não foi o único fator de pressão sobre as incorporadoras. O maior rigor da Caixa na aprovação de financiamentos reduziu a aprovação de crédito para parte dos compradores e dificultou a conversão de vendas brutas em líquidas.
Na Cury, os distratos somaram R$ 358 milhões, alta de 59% em um ano. Na Tenda, os cancelamentos chegaram a R$ 312 milhões, avanço de 78% na mesma comparação, segundo o BTG Pactual. Os valores não devem ser atribuídos exclusivamente à greve, porque a análise de crédito também afetou as operações.
Apesar das dificuldades, MRV, Cury e Tenda mantiveram o ritmo de vendas nas operações de baixa renda. Para o BTG Pactual, os efeitos da paralisação foram atrasos operacionais, e não perdas definitivas de vendas ou receitas. A evolução dos repasses, dos prazos de recebimento e dos cancelamentos nos próximos balanços deverá ajudar a separar os efeitos pontuais da greve de problemas mais persistentes na concessão de crédito.



