SÃO PAULO — O banco digital britânico Monzo passou a priorizar a venda de uma participação de até 15% a fundos de private equity, depois que o Nubank desistiu de negociar sua aquisição. A fintech brasileira recuou diante da avaliação de até dez bilhões de libras (R$ 65,7 bilhões) atribuída ao Monzo.
Nas últimas semanas, o Monzo iniciou conversas com a europeia CVC e com a americana Advent International. Os assessores da empresa devem ampliar o contato com outras gestoras, enquanto a venda para um fundo de private equity é tratada como a alternativa preferida pelo conselho.
O Nubank informou na quarta-feira (30) que não prosseguiria com as negociações. Pessoas familiarizadas com o assunto disseram que as empresas não chegaram a um acordo sobre o preço. O banco digital, listado na Bolsa de Nova York e avaliado em cerca de US$ 65 bilhões (R$ 340 bilhões), decidiu concentrar seus esforços no crescimento no mercado doméstico e nos Estados Unidos, onde obteve recentemente uma licença bancária.
O Monzo ainda pode buscar uma rodada tradicional com investidores de venture capital. A preferência pelo private equity se deve à expectativa de um investimento maior e ao acesso a recursos para financiar a expansão da empresa.
Expansão internacional e pressão sobre a avaliação
A fintech britânica atravessou um período de disputa entre o conselho e investidores sobre a expansão internacional e o aguardado IPO. O então presidente-executivo, TS Anil, foi destituído por preocupações relacionadas ao ritmo de crescimento e ao seu comprometimento de longo prazo com a empresa. Ele continuou no conselho e passou a atuar como assessor da atual CEO, Diana Layfield.
Layfield, ex-executiva do Google, assumiu o comando em fevereiro. Depois disso, fechou os escritórios do Monzo nos EUA, transferiu a prioridade da expansão para a Europa, abriu escritórios na Espanha e obteve uma licença bancária europeia das autoridades da Irlanda.
O diretor financeiro Tom Oldham, ex-executivo do Nubank, e Anil ajudaram a intermediar as conversas de aquisição. Em uma declaração sobre o crescimento da base de clientes, Oldham disse: “Acho que estamos realmente focados apenas em aumentar nossa base de clientes rapidamente.”
O Nubank, sediado em São Paulo, havia identificado o Monzo como uma possível entrada na Europa. A fintech fundada em 2013 tem 140 milhões de clientes, principalmente na América Latina, e busca competir com a Revolut pelo posto de maior fintech do mundo.
A Revolut tem 80 milhões de clientes e avaliação de US$ 115 bilhões (R$ 601,5 bilhões). O Monzo informou ter 15 milhões de clientes neste ano. As duas empresas obtiveram licenças bancárias nos EUA nos últimos meses.
A avaliação pretendida pelo Monzo também gerou questionamentos. A Autonomous classificou o negócio como “financeiramente questionável” e afirmou que uma faixa entre oito bilhões de libras (R$ 54,65 bilhões) e dez bilhões (R$ 65,7 bilhões) equivaleria a sete vezes o valor contábil tangível da fintech.
Segundo a análise, o Monzo gera US$ 9 (R$ 47) por mês com cada cliente, metade da receita média mensal por cliente do Nubank no Brasil. Para John Cronin, analista independente do setor bancário, a diferença de preço pode dificultar a venda a fundos de private equity, que não teriam o mesmo interesse estratégico do Nubank.
Se a captação não avançar, os atuais investidores do Monzo podem precisar injetar mais recursos na empresa para financiar o crescimento e buscar uma saída posteriormente.



