Aliados de Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que um eventual novo mandato seria marcado por uma atuação mais ao centro. A nova composição do Congresso Nacional, definida pelas eleições da última semana, deve dificultar a aprovação de propostas associadas à esquerda e exigir negociações permanentes com o Legislativo.
Lula já enfrenta um Congresso hostil no mandato atual. Para o próximo ano, a correlação de forças na Câmara dos Deputados e no Senado é vista por integrantes do PT como ainda mais desfavorável ao presidente. Nesse cenário, uma das prioridades seria construir acordos para a recondução de Hugo Motta, do Republicanos-PB, à presidência da Câmara, e de Davi Alcolumbre, do União Brasil-AP, ao comando do Senado.
A situação de Alcolumbre é considerada mais difícil porque a oposição a Lula se fortaleceu especialmente no Senado. Motta declarou apoio ao presidente, embora o Republicanos tenha oficializado apoio a Flávio Bolsonaro na última quarta (7). Lula chegou a afirmar que o presidente da Câmara o ajudaria a vencer a eleição.
Promessas sob pressão do Congresso
A configuração do Legislativo também gera dúvidas entre aliados sobre a capacidade de Lula de cumprir promessas de campanha. Um dos exemplos é a reforma para o Judiciário defendida pelo candidato à reeleição. A preocupação é que uma proposta enviada ao Congresso seja alterada durante a tramitação.
O mesmo receio se aplica às PECs, que exigem ao menos três quintos dos votos em cada Casa, em dois turnos. Depois de aprovadas, essas propostas podem ser promulgadas pelo Congresso sem veto presidencial, o que limita a atuação do Executivo.
No mandato atual, Lula incorporou ao governo partidos de fora da esquerda, como PSD, MDB, PP e União Brasil. Ainda assim, essas legendas não deram apoio maciço ao presidente em algumas votações decisivas. O avanço do PL, partido de Flávio Bolsonaro, sobre espaços de partidos de centro e da direita tradicional tende a reduzir as possibilidades de aliança em um novo governo.
A manutenção dos programas sociais é apontada como uma prioridade. Lula passou a tentar associar a eleição de Flávio ao risco de perda desses benefícios. Ao mesmo tempo, deve reforçar em seus discursos a defesa do equilíbrio das contas públicas, em um aceno ao centro político e numa tentativa de sinalizar condições para a queda dos juros caso seja reeleito.
Campanha reformulada
Aliados afirmam que Lula está concentrado na tentativa de reeleição e ainda não começou a desenhar um possível quarto mandato. Outros petistas dizem que não houve discussões específicas sobre um eventual Lula 4, porque os esforços estão voltados para superar Flávio no segundo turno.
Lula terminou o primeiro turno com 45% dos votos, contra 47% de Flávio. Desde a redemocratização, nenhum candidato à Presidência que ficou em segundo lugar nessa etapa conseguiu virar o resultado no turno decisivo.
Depois da votação, Lula reformulou a campanha. Camilo Santana, Rui Costa e Rafael Fonteles assumiram posições de comando, enquanto Edinho Silva e outros dirigentes perderam influência na organização do grupo político. O presidente disse que a campanha do primeiro turno foi a menos organizada de suas disputas presidenciais.
A comunicação também mudou. A equipe passou a fazer ataques mais diretos a Flávio Bolsonaro e adotou vídeos curtos em formato de selfie, após sugestões de aliados como Rafael Fonteles. O formato permite respostas rápidas aos temas em debate nas redes sociais.



