O favoritismo de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial alterou as negociações pela presidência da Câmara dos Deputados e do Senado a partir de fevereiro. O PL pretende comandar pelo menos uma das Casas, enquanto alas do centrão disputam a outra.
Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) receberam pedidos de dirigentes partidários para permanecer nos cargos. Uma ala do PL defende que eventuais acordos sejam fechados somente a partir de novembro, depois do segundo turno. O grupo também quer considerar a orientação de Jair Bolsonaro caso o ex-presidente seja solto pelo STF depois da eleição.
Na noite de terça-feira (6), Flávio conversou com Antônio Rueda (RJ), presidente do União Brasil. Rueda defende a permanência de Alcolumbre no comando do Senado. Aliados dos dois disseram que o diálogo não avançou, e o candidato do PL continua resistente à recondução de Alcolumbre.
O União Brasil, federado com o PP, declarou apoio a Flávio na disputa presidencial. As duas legendas esperam que o apoio seja levado em conta na divisão dos espaços no Congresso e dos ministérios. ACM Neto (União Brasil), derrotado na eleição para o Governo da Bahia, é citado como nome para a Esplanada.
Resistência a Alcolumbre e Motta
Alcolumbre foi eleito presidente do Senado em 2025 com apoio do PL, mas perdeu a adesão da direita ao segurar pedidos de impeachment de ministros do STF. Afastar magistrados do Supremo, principalmente Alexandre de Moraes e Flávio Dino, é o principal objetivo dos bolsonaristas.
A reaproximação de Alcolumbre com Lula antes da eleição agravou o cenário. Também houve reação à decisão de pautar a PEC do fim da escala 6x1 antes do segundo turno, o que pressiona Flávio a se posicionar contra um tema popular.
Na Câmara, Motta também enfrenta resistência do PL. Ele foi eleito com apoio do partido, mas não pautou a anistia aos envolvidos com o 8 de Janeiro, medida que poderia dar liberdade ao ex-presidente Bolsonaro. Os deputados aprovaram um projeto paralelo, com redução de penas, mas a tramitação está suspensa por decisão de Moraes.
Motta também apoiou pautas do governo, incluindo o fim da escala 6x1, aprovado na Câmara em maio. Durante a campanha eleitoral, declarou apoio a Lula na Paraíba. Motta se reelegeu, mas não conseguiu eleger seu pai, Nabor Wanderley, para o Senado.
O presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), conversou com Flávio na quarta-feira (7). O partido havia firmado acordo para apoiá-lo no segundo turno, e Pereira levou ao candidato a proposta de manter Motta na presidência da Câmara. Flávio ouviu a ideia, mas explicou a resistência de seu grupo. O próprio Pereira é citado como alternativa para o cargo, embora essa possibilidade não tenha sido discutida na conversa.
Alternativas em negociação
O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP e aliado da família Bolsonaro desde o governo anterior, foi acionado para atuar em favor de Alcolumbre. Nogueira tem boa relação com Flávio e perdeu a reeleição no Piauí em parte por causa dessa proximidade.
Na Câmara, Doutor Luizinho (PP-RJ) aparece como uma alternativa a Motta dentro do centrão. Outra possibilidade é Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL, que foi vice-presidente da Câmara entre 2023 e 2024. Ele mantém relações com o centrão e com alguns partidos de esquerda e é considerado um bolsonarista fiel.
Integrantes do PL também discutem escolher um nome bolsonarista do centrão para enfrentar Motta. A negociação de ministérios não é descartada. Deputados do partido consideram estratégico o comando da Câmara porque cabe ao presidente da Casa iniciar processos de impeachment do presidente da República.
Motta já admitiu que pretende ser reeleito e recebeu contatos de líderes de partidos de esquerda interessados em reforçar seu apoio. Esse grupo elegeu 124 congressistas, número semelhante ao do PL, mas depende de parte do centrão. Nesta semana, Motta conversou com dirigentes de União Brasil, PP e outras legendas.
No Senado, os principais nomes em discussão pelo campo bolsonarista são Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, e Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro. Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara, também é citado como possível candidato consensual.
Partidos do centrão passaram a defender o impeachment de um ministro do STF para enviar um recado ao Supremo e fortalecer suas lideranças na disputa pelo comando do Senado. Se Marinho for escolhido, o PL pode apoiar outro partido na Câmara. Se Tereza Cristina for a candidata, o PL deve reivindicar o apoio do centrão para presidir os deputados a partir de 2027.
Tamanho das bancadas
O PL terá 28 cadeiras no Senado na próxima legislatura e contará ainda com 11 senadores de outros partidos eleitos com apoio direto de Flávio. São necessários 41 votos para eleger o presidente da Casa.
Na Câmara, o PL terá 121 das 513 cadeiras. A federação União-PP elegeu 87 deputados para a próxima legislatura e é o maior grupo do centrão.
Se Lula vencer a eleição, colegas consideram que Motta teria mais facilidade para ser reconduzido. Alcolumbre, porém, enfrentaria uma disputa difícil mesmo nesse cenário, porque a direita terá uma bancada expressiva e disposta a retirá-lo do cargo.



