SÃO PAULO — O fechamento de casas noturnas acompanha a expansão de empreendimentos residenciais no Baixo Augusta, região tradicional da vida noturna paulistana. Entre novos prédios e aluguéis mais altos, baladas da rua Augusta têm encerrado as atividades ou mudado de perfil.
O Selva Club realiza neste sábado (3) sua festa de encerramento. A casa funcionava desde 2017 em um galpão no número 501 e pertence ao Grupo Tokyo, que também administra a casa Tokyo, os bares Alto e Trópico e a Peixaria Mitsugui.
Em comunicado nas redes sociais, o Selva afirmou: “Aqui muitas histórias começaram, se cruzaram e chegaram ao fim.” O grupo venceu, em 2023, uma licitação para administrar por 15 anos o edifício Martinelli, onde instalou um café, um restaurante e uma área para festas no terraço.
A decisão de encerrar o Selva está ligada à concentração dos negócios do Grupo Tokyo no centro histórico. Os empresários Paulo Roberto Passini Jr. e Fabio Balestro Floriano, donos do grupo, não concederam entrevista.
Ainda não há definição sobre o futuro do imóvel. O proprietário procura interessados em abrir outra balada no espaço e não teria interesse em vendê-lo para uma construtora. Antes do Selva, o galpão abrigou por uma década o Inferno SP, conhecido por shows de bandas de rock alternativo.
Imóveis residenciais ocupam espaço das casas noturnas
No trecho entre as ruas Peixoto Gomide e Caio Prado, fecharam nos últimos anos casas como LAB, Mono Club, Anexo B e 1007 São Paulo. O galpão do 1007 foi demolido em junho para a construção de um prédio residencial. Studio SP e Desmanche, que foram conhecidos nas últimas duas décadas, também encerraram as atividades, embora tenham sido substituídos por outras boates.
Há imóveis com placas de aluguel, dois prédios residenciais em construção e o estande de vendas de um terceiro. Perto do parque Augusta, inaugurado em 2021, um terreno é preparado para receber outro condomínio.
O empresário Facundo Guerra, sócio da Blue Note e do Cine Joia, atribui a perda de espaço das baladas à especulação imobiliária, à mudança de hábitos depois da pandemia e à redução do dinheiro disponível entre o público jovem e LGBT. Para ele, o formato baseado em som alto, bebida barata e madrugada deu lugar a saídas mais cedo, em locais onde seja possível sentar e conversar.
Guerra e o produtor José Tibiraçá, conhecido como Tibira, foram sócios do Club Vegas entre 2005 e 2012. O imóvel da boate foi demolido para dar lugar a um prédio. O clube é apontado como um dos responsáveis pela mudança do perfil da Augusta na década de 2000. Nos anos 90, a região era ocupada principalmente por casas de prostituição.
Para Celso Sampaio, professor de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, a recuperação de espaços públicos como a praça Roosevelt e o parque Augusta aumentou o interesse imobiliário voltado à classe média. Ele afirma que as baladas funcionam como “motores culturais” da rua Augusta.
Clube Outs mantém atividade
O Clube Outs completa 23 anos na região e está entre as casas que continuam abertas. O empresário Edu Chaves, 45, diz que o estabelecimento começou em 2003, em um galpão onde funcionava uma oficina mecânica. Ao lado da balada, hoje também existe o Pub Outs.
A casa teve maior movimento nos anos seguintes, com shows de bandas brasileiras de rock alternativo. Chaves afirma que parte do público mais jovem prefere beber sentado e conversar, mas que ainda há demanda por pista de dança. A programação de shows de rock deve ser retomada.
Segundo o empresário, o aluguel de um ponto comercial no Baixo Augusta pode chegar a R$ 12 mil mensais. Chaves diz que a cultura criada pelas casas noturnas está sendo expulsa pela valorização dos imóveis e prevê que a região será ocupada por prédios.



