SÃO PAULO — A proibição dos mercados de previsão no Brasil reduziu a participação nas plataformas Kalshi e Polymarket e, segundo as empresas, prejudicou as projeções sobre as eleições brasileiras. Mesmo impedidos de operar no país, os sites continuam oferecendo contratos ligados à disputa presidencial, cujos dados circulam entre analistas econômicos e na imprensa.
O governo proibiu essas plataformas em abril, antes de derrubar o mercado regular de bets em setembro. A decisão considerou que os sites ofereciam prognósticos esportivos sem cumprir as regras aplicadas às casas de apostas. Kalshi e Polymarket afirmam, porém, que seu principal produto é a projeção estatística sobre eventos futuros.
Como funcionam os mercados
Diferentemente das pesquisas eleitorais tradicionais, que entrevistam um grupo com distribuição semelhante à da população, os mercados de previsão reúnem apostas em contratos sobre a vitória de candidatos. A probabilidade é calculada pelo preço dos contratos, que varia conforme a oferta e a demanda.
Para funcionar, esse modelo depende de alta liquidez, ou seja, de participantes suficientes para comprar e vender contratos. A restrição à participação de brasileiros cria, segundo as empresas, uma falha de mercado.
Na Polymarket, a média de transações diárias sobre o futuro das eleições brasileiras caiu 89,6% após a proibição, considerando as 73.568 operações neste ano. A plataforma registra cada movimentação em um blockchain. A Kalshi não divulga quantas pessoas participam de cada seção.
O volume apostado nas eleições brasileiras nas duas plataformas equivale a 4,5% do valor movimentado na disputa entre Donald Trump e Kamala Harris nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024.
Contratos sobre os candidatos
A maior aposta eleitoral ativa na Polymarket é de US$ 1,01 milhão (R$ 5,26 milhões) na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O usuário “unknwnfnd” fez a aposta quando a chance de vitória do presidente era estimada em 48%.
Neste sábado (3), a probabilidade atribuída a Lula caiu para 41%. Se vendesse os contratos nesse momento, o apostador teria uma perda de US$ 67 mil (R$ 349,1 mil). Flávio Bolsonaro (PL) aparecia à frente, com 59% de chance de vitória.
Renan Santos, do Missão, tinha 17 apostas superiores a US$ 100 mil. O número era maior que o de Lula, com 8, e o de Flávio Bolsonaro, com 7. A quantidade de grandes apostas, porém, não determina a probabilidade atribuída a cada candidato.
Debate sobre precisão
Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi, disse que a disposição de pagar valida o posicionamento dos participantes. Em entrevista, afirmou: “Os dados são qualitativamente superiores”. A empresa sustenta que seus mercados são uma alternativa às pesquisas eleitorais, especialmente porque considera difícil obter dados confiáveis sobre tendências de votação.
O professor Glauco Peres, do Departamento de Ciências Sociais da USP, avalia que as plataformas ainda não comprovaram, em pesquisas independentes, capacidade de prever resultados futuros com precisão. Cientistas políticos e estatísticos também criticam a falta de material científico independente para validar as projeções.
Uma pesquisa publicada pelo NBER apontou precisão similar à de derivativos usados no mercado financeiro e de pesquisas de opinião na previsão de juros. Estudos de Robert Bartlett, da Universidade de Stanford, e Maureen O’Hara, da Universidade Cornell, identificaram indícios de que formadores de mercados podem lucrar mais que outros investidores em eventos ligados a empresas ou pessoas específicas, além de viés na compra de contratos positivos.
Kalshi e Polymarket afirmam que foram as plataformas que acertaram a vitória de Trump nas eleições de 2024. As empresas enfrentam restrições em 53 países, incluindo o Brasil.



