Uma forte onda de vendas de títulos do governo dos Estados Unidos elevou a pressão sobre o mercado corporativo americano. As empresas com pior classificação de crédito passaram a enfrentar custos de financiamento de até 17% neste mês, o maior nível desde maio de 2020.
A alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro e a maior remuneração exigida pelos investidores para emprestar a companhias mais arriscadas também ampliaram o prêmio de risco de empresas classificadas como triplo C ou abaixo disso. Esse indicador chegou a 12 pontos percentuais, maior nível desde 2022.
As companhias mais expostas são as que têm empréstimos com taxas flutuantes ou precisam refinanciar dívidas nos próximos meses. Na semana passada, o rendimento do título do Tesouro de dez anos alcançou o maior nível desde 2002.
“Os investidores exigem cada vez mais remuneração para assumir o risco de crédito corporativo”, afirma James Reilly, economista sênior de mercados da Capital Economics.
Mercado de dívida mais seletivo
O Bank of America reduziu de cerca de US$ 160 bilhões para US$ 110 bilhões a previsão para o volume de dívida corporativa em dólares e com grau de investimento a ser vendido neste mês.
A cautela também apareceu na operação da Paramount Skydance, que vendeu US$ 52 bilhões em dívida na semana passada para financiar a aquisição da Warner Bros Discovery. A procura pelos títulos com vencimento em dois anos foi quase o dobro da registrada pelos papéis de 30 anos. Depois da emissão, os investidores receberam uma parcela maior de dívida longa do que esperavam, o que provocou uma onda de vendas.
James Carter, codiretor de renda fixa da W1M, afirmou que algumas operações estão sendo retiradas ou adiadas à medida que os investidores ficam mais seletivos. Os títulos de segunda garantia da Paramount Skydance com vencimento em 2036 recuaram vários pontos em relação ao preço de emissão.
Muitas empresas têm preferido emitir dívida com prazos menores para manter a possibilidade de refinanciamento futuro a taxas mais baixas. “Acessar o mercado agora exige mais planejamento”, diz Erin Brown, codiretora de mercados de capitais globais para as Américas no BNP Paribas.
A McCormick informou aos investidores que avaliava as moedas, os prazos e a proporção entre taxas fixas e flutuantes da dívida que pretende emitir para sua megafusão com a divisão de alimentos da Unilever. Marcos Gabriel, diretor financeiro da empresa, disse que a dinâmica do mercado era acompanhada de perto durante a definição da estratégia de financiamento.
Risco para refinanciamentos
Parte relevante das captações com grau de investimento não foi afetada pela alta dos rendimentos neste ano. Esse segmento é dominado por empresas que desenvolvem projetos ligados à inteligência artificial e consideram que a necessidade de construir centros de dados compensa custos de financiamento adicionais de um ou dois pontos percentuais.
Uma nova alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro, porém, poderia ampliar os efeitos sobre os mercados de crédito. A Moody’s estimou, no ano passado, que US$ 1,45 trilhão em dívida corporativa americana com grau de investimento venceria entre 2026 e 2030.
O aumento dos juros pressiona as empresas a elevar os lucros em ritmo semelhante ao avanço dos custos de financiamento. Michael Zdinak, da S&P Global, afirmou que a permanência dos juros em níveis elevados ao longo de 2027 e 2028 poderia representar um choque para o sistema de dívida corporativa.
No mercado futuro, as apostas indicam que o Federal Reserve ainda poderá elevar os juros três ou quatro vezes até o início de 2028. A faixa atual está entre 3,75% e 4%.
Para Atsi Sheth, diretora de crédito da Moody’s, haverá um problema de crédito caso a lucratividade não avance no mesmo ritmo dos custos de financiamento. Empresas também poderão adiar investimentos, aquisições, recompras de ações e planos de expansão se os juros continuarem elevados no próximo ano.



