A queda do dólar para perto de R$ 5 e o recuo das taxas de juros projetadas para os próximos anos impulsionaram ações de empresas ligadas à economia doméstica e ao crédito. Varejo, bancos, locadoras, construção civil e companhias mais endividadas ficaram entre os principais destaques da Bolsa.
A reação ocorreu depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar a primeira etapa da disputa à frente de Lula (PT), com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. O movimento nos mercados refletiu principalmente a expectativa de um custo menor para o dinheiro.
Varejo e consumo
O Magazine Luiza liderou as altas, com valorização de 24,18%. C&A Modas, Assaí, Lojas Renner e Azzas 2154 também avançaram. Na terça-feira (6), por volta de 11h44, Azzas, Fleury, Cogna, Totvs e Yduqs estavam entre as maiores altas. A Azzas subia 5,05%, cotada a R$ 23,29.
Empresas de varejo são sensíveis aos juros porque dependem do crédito e do consumo das famílias. Com taxas menores, os financiamentos tendem a ficar mais baratos, o que pode favorecer as compras. A redução dos juros também aumenta o valor atribuído pelos investidores aos lucros esperados para o futuro.
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, afirma que a queda dos juros pode favorecer simultaneamente a avaliação das companhias e a demanda por crédito. Para Matheus Spiess, estrategista da Empiricus, a alta não representa necessariamente uma melhora imediata da economia: o mercado reage primeiro às expectativas sobre os juros e o ambiente econômico.
Bancos e empresas dependentes de crédito
B3 e BTG Pactual avançaram 22,63% e 22,52%, respectivamente. As ações preferenciais do Bradesco subiram 13,57%. Para esse grupo, além do efeito das taxas menores, o mercado considera a possibilidade de aumento das negociações, captações e operações no mercado de capitais.
Condições de crédito mais favoráveis também podem estimular empréstimos para empresas e consumidores, o que tende a beneficiar o setor financeiro.
As ações de Vamos e Localiza subiram 21,31% e 20,68%. As duas companhias precisam financiar operações e investimentos. No caso das locadoras, a renovação frequente das frotas exige grandes volumes de recursos. Com juros menores, o custo desse financiamento pode cair e reduzir as despesas financeiras.
Araújo resume o efeito para companhias com maior endividamento: “podem aliviar as despesas financeiras ao longo do tempo, dependendo da estrutura da dívida”.
Construção e empresas de energia
A Cyrela, que atua principalmente com incorporação e construção imobiliária no Brasil, subiu 18,40%. O setor depende das condições do financiamento imobiliário, que influenciam a decisão de compra das famílias. Taxas mais baixas podem ampliar o acesso ao crédito e melhorar as perspectivas para lançamentos e vendas.
A Cosan avançou 23,79%. Energisa e Equatorial tiveram altas de 13,96% e 13,72%, respectivamente. Energisa e Equatorial atuam principalmente no setor elétrico, enquanto a Cosan é uma holding com investimentos em energia, combustíveis, logística e infraestrutura.
A estrutura financeira da Cosan ajuda a explicar parte da reação. Empresas endividadas ou que precisam de muitos recursos para manter suas operações tendem a se beneficiar mais quando o mercado projeta juros menores, porque o custo do crédito pode diminuir.
Petrobras e os próximos movimentos
As ações da Petrobras também subiram, apesar da queda do preço do petróleo no mercado internacional. Para Araújo, uma possível explicação é a menor percepção de risco político em relação à companhia e as expectativas sobre sua gestão e decisões de investimento em um eventual novo governo.
Matheus Spiess também destacou o efeito da valorização do real sobre as exportadoras. Como essas empresas recebem parte das receitas em moeda estrangeira, uma moeda brasileira mais forte pode reduzir, em reais, o valor dessas vendas. A Petrobras teria sido uma exceção, beneficiada também pela percepção de maior alinhamento da política econômica.
A valorização das ações não significa que os resultados das empresas tenham melhorado na mesma proporção. Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, afirma que o mercado passou a considerar uma probabilidade maior de melhora na trajetória fiscal, queda dos juros e ambiente mais favorável ao investimento privado.
A alta pode continuar se surgirem novos sinais nesse sentido, como o resultado do segundo turno, a formação da equipe econômica e propostas para as contas públicas. Se as expectativas mudarem, as ações podem devolver parte dos ganhos. Patrus recomenda distinguir a reação de curto prazo de uma mudança estrutural de longo prazo.



