CARTERSVILLE (EUA) — Fabricantes dos Estados Unidos se preparam para lançar uma nova geração de painéis solares que pode produzir 25% mais energia que a maioria dos equipamentos atuais. A tecnologia, chamada de solar tandem, combina duas ou três camadas de materiais para converter uma parcela maior da radiação solar em eletricidade.
Entre as empresas que afirmam estar próximas da comercialização estão Tandem PV, First Solar e Hanwha Qcells. Os fabricantes dizem ter testado os equipamentos com sucesso e obtido certificações de órgãos técnicos. O objetivo é atender ao aumento da demanda por eletricidade com menos espaço em terrenos e telhados.
“É a próxima fronteira”, disse Mike Carr, diretor-executivo da Coalizão de Fabricantes de Energia Solar para a América. Ele reconheceu que empresas chinesas também desenvolvem painéis tandem, mas afirmou que a tecnologia delas “não é melhor que a nossa e talvez esteja até atrás”.
Custo e confiabilidade são obstáculos
A adoção dos novos painéis dependerá do preço e da comprovação de que eles não se degradam mais rapidamente que os modelos convencionais. Segundo algumas estimativas, os equipamentos tandem podem custar de três a três vezes e meia mais que os painéis convencionais, geralmente produzidos com uma única camada de silício.
O custo de compra e instalação dos modelos convencionais em parques solares fica entre US$ 0,93 (R$ 4,64) e US$ 1,06 (R$ 5,29) por watt, conforme relatório da Associação das Indústrias de Energia Solar. Andrés Gluski, presidente-executivo da AES, disse que o preço será decisivo, diante dos valores praticados por fabricantes chineses. A China, afirmou, “provavelmente poderia abastecer o mundo duas vezes”.
A Qcells testa seus painéis em um laboratório na Alemanha e em campos nos Estados Unidos, na Austrália, em Chipre e na Coreia do Sul. Os procedimentos incluem exposição a luzes de LED e o disparo de bolas de gelo de diferentes tamanhos contra os equipamentos, para avaliar a resistência a condições climáticas extremas.
Os ensaios buscam demonstrar a empresas de energia, investidores e credores que os painéis podem durar de 20 a 30 anos depois da instalação em desertos de temperaturas elevadas ou em campos sujeitos a chuvas fortes. Fabian Fertig, responsável pela pesquisa e desenvolvimento da tecnologia tandem da Qcells, disse que a empresa tem priorizado a estabilidade para convencer os bancos sobre a capacidade de funcionamento dos equipamentos.
Chetan Krishna, diretor da RMI no Colorado, afirmou que ainda existem dúvidas sobre a durabilidade e a degradação dos painéis. Ele e outros especialistas, porém, avaliam que a tecnologia está próxima de chegar ao mercado. Wayne Li, diretor do Instituto de Pesquisa de Energia Elétrica, disse que testes extensivos realizados por terceiros serão necessários para medir a confiabilidade e a vida útil dos equipamentos.
Disputa com a China
A China controla cerca de 80% do mercado de painéis solares, fornecendo os equipamentos ou componentes. O país reduziu a participação de fabricantes dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão ao vender produtos por preços muito inferiores. Esses países haviam liderado o setor até por volta de 2010.
Os governos de Joe Biden e Donald Trump adotaram tarifas, subsídios e outras políticas para recuperar a fabricação americana. Nos últimos anos, novas fábricas foram construídas nos Estados Unidos. A Hanwha, empresa sul-coreana que comprou a fabricante alemã Qcells em 2012, investiu bilhões de dólares em linhas de produção na Geórgia, inclusive em Cartersville, ao norte de Atlanta.
A política americana também pode dificultar a expansão da tecnologia. Republicanos no Congresso e o governo Trump restringiram a obtenção de licenças federais para novos parques solares enquanto defendem o uso de combustíveis fósseis e usinas nucleares.
Especialistas afirmam que desenvolver os painéis tandem antes dos concorrentes chineses permitiria aos Estados Unidos, à Alemanha e a outros países recuperar parte relevante da indústria solar mundial. O desenho dos equipamentos também favorece a First Solar, uma das poucas fabricantes americanas que permaneceram no mercado após a ascensão da China.
Os produtos da First Solar usam um material de película fina que outras empresas provavelmente teriam de aperfeiçoar para fabricar as camadas dos painéis tandem. Mark Widmar, presidente-executivo da companhia, disse que foram investidos mais de US$ 2 bilhões (R$ 9,99 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento de películas finas, incluindo o programa de tecnologia tandem.
Participação na matriz elétrica
A energia solar respondeu por quase 9% da eletricidade produzida nos Estados Unidos em 2025, ante 3% em 2020, segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos. No primeiro semestre deste ano, energia solar e baterias representaram 70% da capacidade adicionada às redes elétricas americanas, conforme a Wood Mackenzie.
Executivos do setor dizem que os painéis tandem poderiam alcançar fatores de capacidade superiores a 31%. Esse indicador mede a proporção entre a eletricidade efetivamente produzida e o máximo que uma usina poderia gerar se operasse continuamente. Usinas nucleares costumam registrar índices na casa dos 90%, enquanto grandes usinas a gás natural operam em torno de 58% e parques solares americanos têm média de aproximadamente 24%.
Como os painéis só geram eletricidade quando há luz solar e não convertem toda a radiação recebida em energia utilizável, o aumento da eficiência poderia permitir a produção da mesma quantidade de eletricidade com menos espaço e materiais. A expansão também poderia contribuir para atender à alta demanda provocada por centros de dados usados no desenvolvimento de inteligência artificial.



