A rota marítima do norte registrou 133 viagens no mês passado, mais de quatro vezes o volume de 2022 e 46% acima do resultado de agosto, segundo dados da Lloyd’s List Intelligence. Quase metade das embarcações tinha bandeira russa, enquanto navios chineses passaram a usar o corredor como alternativa para alcançar mercados europeus em meio a interrupções no Oriente Médio e no mar Vermelho.
O porta-contêineres chinês Dubai Tower percorreu o trajeto entre Qingdao e Felixstowe, no Reino Unido, em setembro. A viagem levou 24 dias, contra 40 dias ou mais pelas rotas que passam pelo canal de Suez ou pelo cabo da Boa Esperança. Outro navio da mesma empresa saiu de Ningbo com destino a Felixstowe em 27 de setembro.
Setembro normalmente concentra o maior movimento no Ártico, quando o gelo marinho chega ao nível mais baixo e permite a passagem de embarcações sem capacidade para navegar em áreas congeladas. Em 2025, a cobertura de gelo no norte teve a maior redução anual no inverno desde o início dos registros por satélite e continuou em níveis historicamente baixos, de acordo com pesquisadores da Universidade de Southampton.
A menor extensão do gelo e a pressão sobre pontos estratégicos, como o estreito de Bab al-Mandab, na entrada do mar Vermelho, aumentaram o interesse dos armadores. O canal do Panamá também enfrenta condições de seca neste ano. O estreito de Bab al-Mandab é ameaçado pelos rebeldes houthis do Iêmen e se tornou uma rota importante para as exportações de petróleo da Arábia Saudita desde que o Irã restringiu o transporte pelo estreito de Hormuz, em resposta aos ataques dos Estados Unidos contra a República Islâmica.
Além de navios de gás natural liquefeito destinados às plantas Yamal e Arctic LNG 2, na Rússia, a rota passou a receber mais graneleiros, usados normalmente para transportar commodities como grãos e minério de ferro. Foram 29 graneleiros em setembro, ante 18 em agosto e um recorde anterior de 12 em setembro do ano passado. A Lloyd’s List também registrou número recorde de petroleiros no corredor.
A rota é formada por 28 trechos, com regras que variam conforme as condições do gelo. A administração é controlada pela Rosatom, estatal russa responsável por emitir autorizações de navegação.
Seguradoras e ambientalistas alertam para o risco de acidentes em uma área com pouca estrutura de busca, salvamento e limpeza. Romain Troublé, diretor-executivo da Fundação Tara Ocean, afirmou que até vazamentos pequenos poderiam intensificar o aquecimento global, porque gotas escuras sobre o gelo absorvem a luz solar e aceleram o derretimento.
Também existem riscos para os marinheiros, devido ao clima imprevisível e às condições extremas. Tom Mellor, chefe de parcerias técnicas do Instituto Hidrográfico do Reino Unido, disse que equipamentos de navegação podem funcionar de forma inadequada em latitudes muito ao norte. Para ele, a representação dos dados precisa de uma metodologia diferente para posicionar corretamente as informações nas cartas náuticas.



