CAMPO GRANDE — A combinação de notícias, pesquisas eleitorais e publicações nas redes sociais pode aumentar a ansiedade e a angústia na reta final das eleições. Conflitos familiares e o medo de uma vitória do candidato adversário também contribuem para esse quadro, segundo especialistas.
Ingrid Battisti, 32, passou a lidar com mais opiniões políticas divergentes depois de voltar para Campo Grande (MS), após um período em São Paulo. Ela conta que antes convivia principalmente com amigos que tinham posições próximas às suas, mas voltou a encontrar pessoas com quem mantém relações desde a infância.
"Agora com a proximidade das eleições as pessoas têm ficado muito mais reativas", diz Ingrid.
Limites para as conversas e para as redes
A psicóloga Carla Slongo, conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Paraná, afirma que estabelecer limites pode ajudar a evitar discussões políticas desgastantes com familiares e amigos. Para ela, recusar esse tipo de conversa em determinadas situações é uma forma de autopreservação e não significa deixar de se posicionar.
O professor e consultor de marketing político Marcelo Vitorino, que atua na área há 30 anos, afirma que as campanhas trabalham com narrativas de inspiração, esperança, resgate e medo. Segundo ele, Flávio Bolsonaro (PL) adota uma estratégia de resgate; Lula (PT), de continuidade; e Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), de ruptura. O medo, diz Vitorino, aparece em todas essas abordagens, especialmente nas redes sociais.
Na internet, as campanhas conseguem publicar mensagens mais confrontadoras e provocadoras, além de usar a “zoeira”, segundo o consultor. Ele também afirma que o eleitor passou a receber conteúdos de forma mais imediata: uma mensagem publicada por um candidato pode ser encaminhada rapidamente para grupos e outras plataformas, chegando ao celular em poucos minutos.
A psicóloga Natália Aguilar, especialista em Gestalt-terapia pelo Instituto Sedes Sapientiae, diz que o organismo não foi feito para permanecer em alerta constante. Ela recomenda não abandonar completamente o acompanhamento da eleição, mas escolher fontes confiáveis, definir horários para buscar informações e evitar a consulta contínua às redes.
Ingrid mudou seus hábitos ao longo das eleições. Em 2018, acompanhava intensamente o Twitter e o Instagram. Em 2022, deixou o Twitter depois de perceber que a plataforma estava prejudicando seu bem-estar. Hoje, seleciona melhor as fontes e os horários em que se informa.
Além de reduzir a exposição às notícias, Aguilar orienta preservar o sono, a atividade física, o trabalho, o lazer e a convivência com familiares e amigos fora do ambiente político.
Quando a preocupação afeta a rotina
Uma pesquisa conduzida por universidades americanas avaliou 500 mil adultos durante as eleições de 2016 nos Estados Unidos. Publicado em outubro de 2020 no Journal of General Internal Medicine, o estudo indicou que o processo de escolha de um representante pode afetar a saúde mental pública, especialmente quando o resultado é inesperado ou envolve uma disputa muito acirrada.
Outro levantamento, da Associação Americana de Psicologia, apontou que 81% dos adultos nos Estados Unidos disseram, em 2020, que o futuro político do país era uma fonte significativa de estresse. Em janeiro de 2017, esse índice havia sido de 66%.
Para a psicóloga comportamental Leticia de Oliveira, parte do estresse vem da sensação de falta de controle sobre um resultado capaz de afetar o futuro de todos. A incerteza pode despertar medo, raiva e impotência, sentimentos que tendem a ser reforçados pelo excesso de informação. Pessoas mais vulneráveis emocionalmente, frustradas ou com questões mal resolvidas podem ter maior inclinação a entrar em discussões políticas.
Natália Aguilar recomenda observar sinais como dificuldade para dormir, irritabilidade, perda de concentração, necessidade constante de verificar notícias, sensação permanente de ameaça, conflitos com familiares ou amigos e dificuldade de se desligar do assunto durante os momentos de descanso.
O eleitor pode se informar, avaliar propostas, conversar, participar politicamente e votar, mas não consegue controlar sozinho todas as variáveis de uma eleição. Para Aguilar, reconhecer essa diferença ajuda a lidar com a tentativa de controlar o futuro e a preservar a rotina durante o período eleitoral.



