A cientista política norte-americana Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas, avalia que a disputa presidencial opõe dois candidatos com baixa capacidade de mobilização. Para ela, há desgaste da população em relação a Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) também não desperta entusiasmo amplo.
Hunter estuda a trajetória do PT e é autora de The Transformation of the Workers' Party in Brazil, 1989-2009. Na avaliação da pesquisadora, a eleição tende a ser mais difícil para o partido de Lula do que a disputa anterior. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro por 1,8 ponto percentual.
Entre os fatores citados estão a preocupação com o custo de vida, apesar de um desempenho econômico que ela não considera ruim, e a mudança nas aspirações profissionais de parte da população. Segundo Hunter, diminuiu o grupo interessado no regime CLT e na participação em sindicatos, enquanto aumentou o número de pessoas que querem ser empreendedoras.
A professora também identifica um cansaço em relação a Lula e ao PT. Na sua avaliação, eleitores consideram que o partido não apresenta ideias novas e desejam renovação. Sobre os dois lados da disputa, resumiu: “Tanto Lula quanto Flávio geram pouco entusiasmo”.
Antipetismo e mudança geracional
Hunter contesta a associação automática entre antipetismo e uma parcela branca, rica e concentrada no Sul e no Sudeste. Para ela, a rejeição ao PT reúne perfis variados, incluindo pessoas pertencentes a minorias.
A pesquisadora afirma que esse sentimento é alimentado por um discurso baseado em trabalho e mérito. Ela cita como exemplo a ideia de que determinada pessoa não mereceria receber um benefício. Na avaliação de Hunter, programas sociais perderam parte do apelo eleitoral porque foram normalizados. No caso do Bolsa Família, ela afirma que isso ocorre desde 2003.
Outro aspecto destacado é a mudança no comportamento eleitoral por faixa etária. Historicamente, os jovens tendiam à esquerda, enquanto os mais velhos eram mais conservadores. Hunter afirma que esse padrão está se invertendo e que a campanha de Lula deveria dar mais atenção às pessoas com mais de 70 anos.
Nesse grupo, segundo a pesquisadora, Lula tem entre 10 e 15 pontos de vantagem sobre Flávio. Ela afirma que essas pessoas são menos influenciadas pela ideia de que todos devem se tornar empreendedores. Muitas não são obrigadas a votar e não participaram da eleição de 2022.
Oposição e democracia
Na avaliação de Hunter, Flávio foi uma escolha competitiva para a oposição porque conta com cerca de 30% de apoio automático entre os seguidores de Jair Bolsonaro. O candidato também poderia avançar entre eleitores antipetistas que não são bolsonaristas, mas estão cansados de Lula.
A professora não considera que uma eventual vitória de Flávio represente, por si só, risco para a democracia. Ela cita o federalismo brasileiro e os interesses do Congresso como barreiras a uma solução autocrática. Segundo Hunter, os parlamentares perderiam espaço nesse cenário.
A pesquisadora faz, porém, uma ressalva: políticas sociais e projetos para a Amazônia correriam risco sob um novo governo bolsonarista. Ela também afirma não ver possibilidade de interferência do governo Trump nas eleições brasileiras e elogia o trabalho do TSE e a segurança do sistema eleitoral.
Hunter avalia ainda que uma eventual derrota de Lula não deveria ser interpretada automaticamente como uma nova onda de direita no Brasil. Para ela, o resultado estaria mais relacionado à rejeição ao grupo no poder, além de ocorrer em um país que já tem Congresso e governadores bastante à direita.



