O cientista político Marcus André Melo avalia que o Brasil atravessa uma deterioração institucional mais profunda do que as crises anteriores. Para ele, o caso Master expôs uma ligação sem precedentes entre interesses públicos e privados e alcançou instituições centrais do sistema de freios e contrapesos da República.
Professor da Universidade Federal de Pernambuco e coautor do livro “Por que a democracia brasileira não morreu?”, Melo afirma que o escândalo envolve, ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal de Contas da União, o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários. Segundo ele, esse alcance não tem precedente na trajetória recente do país.
Eleição e Supremo
Na avaliação do cientista político, a eleição presidencial de 2026 terá peso maior porque o vencedor poderá indicar até quatro ministros do STF. A possibilidade transforma o comando da Corte no principal prêmio da disputa política e aumenta o risco de uma relação de soma zero entre os grupos em disputa.
Melo afirma que o potencial é ainda maior se Lula vencer, porque uma das vagas será a do ministro Luiz Fux. André Mendonça e Kassio Nunes Marques são os dois ministros do Supremo que, segundo ele, não estão identificados com o governo atual. O Senado mantém a prerrogativa de consentir com as indicações, mas o entrevistado diz que as relações entre os Poderes estão condicionadas pelas vulnerabilidades e pelos ilícitos envolvendo seus atores.
Da redemocratização à crise
Melo descreve o início da redemocratização como um período marcado pela hiperinflação, por déficits fiscais e por dificuldades de governabilidade. Durante os dois mandatos de FHC, o presidencialismo multipartidário teria funcionado, reformas foram aprovadas e a inflação foi controlada. A alternância pacífica de poder em 2002, segundo ele, representou um teste de maturidade institucional.
O mensalão colocou à prova a independência do STF. Depois, a partir de 2008, o boom de commodities e a euforia do pré-sal coincidiram com uma gestão fiscal que Melo classifica como temerária sob Dilma Rousseff, a partir de 2011. A exposição da corrupção sistêmica pela Lava Jato e pelo Petrolão teria contribuído para o colapso econômico e o impeachment.
Na sequência, Jair Bolsonaro chegou ao poder com pretensões hegemônicas e patrocinou o desmonte de políticas institucionais, segundo Melo. O multipartidarismo e o caráter hiperminoritário do presidente limitaram suas iniciativas, enquanto o Supremo também atuou como fator de contenção.
Instituições ainda em funcionamento
Apesar do diagnóstico, Melo afirma que a democracia brasileira não está morta. Investigações, imprensa independente, sociedade civil, setores empresariais e núcleos profissionais do Estado continuam funcionando, na avaliação dele.
O cientista político também critica a atuação do Executivo na disputa eleitoral. Medidas como o reajuste do Bolsa Família, a negociação de dívidas, a proibição das bets e a distribuição de canetas emagrecedoras teriam sido convertidas em moeda de troca política. O custo final foi estimado em R$ 215 bilhões, em um cenário fiscal considerado crítico.
Para Melo, o caso Master mostra simultaneamente a existência de conluios e a capacidade de investigação. Ele resume o momento com a frase: “Se em 1990 o país estava bêbado, hoje está sequestrado”. O entrevistado diz, porém, que ainda é impossível prever o desfecho da crise institucional.



