Relatórios da Polícia Federal enviados ao Supremo Tribunal Federal afirmam que decisões estratégicas do Banco de Brasília (BRB) eram levadas ao então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, antes da análise pelos órgãos formais de governança. Para os investigadores, esse procedimento indicaria centralização das decisões e interferência política na condução do banco público.
A PF aponta quatro áreas de participação de Ibaneis: a autorização dos valores do aumento de capital, a definição da estratégia de expansão do BRB, a validação de decisões operacionais consideradas críticas e a articulação com agentes privados.
Linha do tempo das negociações
A investigação relaciona a atuação do ex-governador à tentativa de aquisição do Banco Master, de Daniel Vorcaro. As primeiras movimentações identificadas ocorreram em outubro de 2024, quando o BRB colocou ações no mercado com o objetivo de captar até R$ 1 bilhão e ampliar seu capital social. Segundo a PF, essa operação fazia parte de etapas preparatórias para uma futura compra do Master.
As conversas diretas sobre a aquisição teriam começado em janeiro de 2025. Em 20 de janeiro de 2025, Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, informou a Vorcaro que o governador havia pedido o agendamento de uma reunião.
Três dias depois, em 23 de janeiro, Ibaneis, Vorcaro, Costa e um interlocutor identificado no relatório como Leonardo se encontraram em Zurique, na Suíça. A PF considera esse encontro o início do processo de aquisição do Master pelo BRB.
Em 26 de janeiro, Vorcaro perguntou a Costa sobre o andamento da negociação e mencionou que o jornalista Lauro Jardim havia feito questionamentos sobre o assunto. Costa demonstrou preocupação com o vazamento e afirmou que não haviam ampliado “o escopo das pessoas envolvidas no deal”.
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. Em um dos relatórios, a PF afirma que o Master passou a integrar indiretamente a estrutura acionária do BRB por meio dos fundos de investimento Borneo, Verbier e Delta. Conforme a investigação, os fundos teriam sido estruturados para ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada.
Defesas contestam participação direta
A defesa de Ibaneis negou que ele tenha pressionado o BRB ou interferido nas operações. Os advogados afirmaram que Paulo Henrique Costa tinha autonomia para conduzir as negociações e que o contato com o ex-governador ocorreu em contexto institucional. Também disseram que Ibaneis não trocou mensagens diretamente com Vorcaro e que seu nome aparece quatro vezes no relatório da PF.
A defesa de Costa afirmou que o ex-presidente do BRB não era o proprietário da instituição e que decisões desse porte dependiam da aprovação do Conselho de Administração. Segundo os advogados, o Governo do Distrito Federal era o acionista majoritário e o sistema interno de governança impediria uma operação ilícita sem autorização.
A defesa de Vorcaro informou que não se manifestaria. A PF concluiu que a relação entre BRB e Master foi alinhada a interesses específicos, em prejuízo dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público.


