Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro registram negociações do ex-dono do Banco Master com pessoas próximas aos senadores Otto Alencar e Jaques Wagner antes da Operação Compliance Zero, que levou à prisão de Vorcaro em novembro de 2025.
Investimento na Ecoari
Isadora Alencar, filha de Otto, conversou com Vorcaro sobre um possível investimento na Ecoari, startup que atua em Salvador e oferece dinheiro a pessoas que descartam lixo em pontos selecionados de reciclagem. Ela afirmou que a aquisição da empresa não foi concluída.
Em setembro de 2024, Isadora procurou Vorcaro após receber seu contato de uma pessoa chamada Ciro, provavelmente o advogado Ciro Soares, próximo à família Alencar e interlocutor frequente do então banqueiro. Ela pediu uma reunião para discutir os próximos passos da aquisição. O encontro foi marcado para o dia 17.
Depois, Isadora informou que a conta havia sido aberta e, mais tarde, disse que o banco tinha repassado o valor previsto. Ela também perguntou se poderia falar com alguém do Master sobre a aplicação de parte dos recursos. Vorcaro indicou uma pessoa e recomendou um CDB com liquidez.
A B3 informou ao Coaf que a Ecoari mantinha no Banco Master ativos incompatíveis com o porte da empresa. Os alertas ocorreram em outubro e novembro, quando a startup tinha mais de R$ 9 milhões custodiados. O registro descreveu uma pessoa jurídica de porte reduzido, com ativos incompatíveis com o patrimônio estimado a partir das ocupações declaradas no cadastro da B3 e do Ministério do Trabalho.
Em setembro de 2025, houve um novo alerta, dessa vez relativo a R$ 2,8 milhões. Na ocasião, Isadora agradeceu a Vorcaro pela presença em seu aniversário e pelos presentes. Ele respondeu que estava feliz por ter estado com a família dela.
Isadora disse que a movimentação foi um empréstimo regular obtido pela empresa dentro da legislação. Também afirmou que as conversas tinham conteúdo profissional e que a Ecoari atua com legalidade, integridade, transparência e governança.
Obras de arte e Jaques Wagner
Guilherme Sodré, conhecido como Guiga, negociou com Vorcaro a compra de obras de Alberto da Veiga Guignard e Cândido Portinari. Em julho de 2024, ele enviou informações sobre as pinturas “Ouro Preto” e “Casamento na Roça”. Vorcaro respondeu que eram “Maravilhosas!”.
Segundo a Polícia Federal, Guiga era pessoa de confiança e articulador de Jaques Wagner. Ele teria ajudado a aproximar o grupo empresarial do Banco Master do entorno do senador. Guiga é pai de Eduardo Sodré, enteado de Wagner e secretário de Meio Ambiente da Bahia.
Em agosto, depois de um telefonema de dois minutos, Guiga enviou a Vorcaro o número de telefone de Wagner e desejou boa sorte ao ex-banqueiro. A defesa do senador afirmou que não houve conversa entre os dois naquela ocasião e que Wagner não tem relação com Vorcaro nem atuou em favor do Banco Master.
Wagner deixou a liderança do governo Lula em junho, após ser alvo de uma operação que o apontou como suspeito de receber pagamentos relacionados ao Master. Ele disse que sua relação era com Augusto Lima, ex-sócio do banco, e que havia visto Vorcaro duas vezes.
Otto, aliado de Wagner e seu vice no segundo mandato do governo da Bahia, entre 2011 e 2014, afirmou em 19 de setembro que não havia se encontrado com Vorcaro. Procurados, Otto e Guiga não se manifestaram.



