SÃO PAULO — A renda marcou uma divisão entre os votos de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno. Lula venceu entre os mais pobres, enquanto Flávio superou Jair Bolsonaro em todas as faixas de renda e passou a liderar nos grupos acima de 1,6 salário mínimo.
Na comparação com o primeiro turno de 2022, Lula perdeu votos em quase toda a distribuição de renda. A maior queda ocorreu entre os responsáveis por domicílios com rendimento de cerca de 1,71 salário mínimo, equivalente a R$ 2,7 mil. Entre os 4% mais ricos, porém, o presidente avançou. Na cidade de São Paulo, ele recuou entre os setores mais pobres e cresceu entre os mais ricos.
A vantagem de Lula é maior nos setores com renda média de 0,7 salário mínimo, ou R$ 1,1 mil, onde alcançou 76% dos votos. Flávio teve seu melhor resultado na faixa de 2,9 salários mínimos, equivalente a R$ 4,7 mil, com 56%.
No grupo mais rico, com renda média de 16,2 salários mínimos —cerca de R$ 26,2 mil—, Flávio registrou 50% dos votos, contra 39% de Lula. A faixa de renda que vai de 1,6 salário mínimo até 16,2 salários mínimos reúne 68% da população. Lula tem ampla vantagem entre quem recebe até um salário mínimo, mas essa diferença diminui até 1,6 salário mínimo.
Diferenças entre as classes
Na divisão por faixas de consumo, Lula lidera nas classes E, com 76%, e D, com 68%. Flávio aparece à frente na classe C, com 52%, e entre as classes B e A, com 53% e 50%, respectivamente. A classe C concentra 78% da população, mas o recorte usa áreas maiores e considera a renda média domiciliar total, não a renda per capita.
Em relação a 2022, Lula caiu 5,1 pontos percentuais na classe C, 3,9 na D e 3,2 na E. Na classe B, avançou 0,4 ponto percentual; na A, 1,6. Flávio cresceu em todas as faixas na comparação com o desempenho de Jair Bolsonaro. O maior avanço ocorreu na classe C, com 4,9 pontos percentuais. Nas classes D e E, as altas foram de 4,5 e 4,3 pontos percentuais.
Os critérios de classe usados na análise foram baseados em estudo da FGV Social. A classe A reúne famílias com renda de R$ 14,2 mil ou mais; a B, de R$ 10,9 mil a R$ 14,2 mil; a C, de R$ 2,5 mil a R$ 10,9 mil; a D, de R$ 1,6 mil a R$ 2,5 mil; e a E, de R$ 0 a R$ 1,5 mil.
Variações regionais e metodologia
O economista Flávio Ataliba calcula que a associação entre renda e voto nos estados é de quase 70%. Quando o Nordeste é retirado da amostra, essa relação cai e fica praticamente insignificante. Acre e Roraima são citados como exemplos de estados do Norte com votação expressiva em Flávio e indicadores de renda e pobreza semelhantes aos de estados nordestinos.
Os resultados também variam entre os estados. Em Minas Gerais, a tendência se aproxima da observada no país. Na Bahia, Lula vence em todos os grupos de renda, embora sua margem diminua conforme o rendimento aumenta. No Paraná, Flávio lidera em todos os setores, com vantagem maior entre os mais ricos.
Marcelo Neri, da FGV Social, relaciona a insatisfação da classe C a dificuldades de consumo, endividamento e inadimplência. Ele afirma que a renda média do trabalho cresceu 26% em termos reais, mas que os brasileiros continuam endividados.
A análise cruzou a votação presidencial nos 468 mil setores censitários do Brasil com a renda média dos responsáveis pelos domicílios no Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE em 2026. Os setores foram divididos em 100 grupos de renda, do mais pobre ao mais rico.
A votação de cada setor foi estimada a partir das urnas próximas aos locais de votação. Os resultados do TSE foram conferidos com os boletins de urna, com coincidência de 100%. Setores sem domicílios, com renda sob sigilo estatístico ou sem locais de votação próximos ficaram fora do cálculo.



