A Meta passou a classificar seus data centers de inteligência artificial como modelos-piloto para obter um crédito tributário destinado a pesquisa e experimentação. A estratégia reduziu os impostos da empresa em US$ 2 bilhões (R$ 10,4 bilhões) em 2024 e em US$ 3,9 bilhões (R$ 20,27 bilhões) em 2025, segundo documentos da companhia.
O benefício permite que empresas recebam um reembolso por materiais e insumos usados em experimentos, desde que não estejam apenas em operações comerciais convencionais. A Meta afirma que os chips de computação para IA comprados de empresas como a Nvidia se enquadram nessa regra.
A empresa começou a reivindicar o crédito para os data centers há dois anos. O valor informado em 2025 foi muito superior aos US$ 700 milhões (R$ 3,64 bilhões) registrados em 2023, antes do início da estratégia. A Meta se tornou a maior beneficiária do crédito entre as companhias de capital aberto.
Mark Zuckerberg defendeu os investimentos em inteligência artificial em uma conversa com investidores. “Nossos investimentos em IA estão acelerando todas as principais áreas do nosso negócio”, disse o presidente-executivo.
Disputa sobre a interpretação do benefício
A classificação dos data centers como experimentais gerou questionamentos dentro do departamento financeiro da Meta. O IRS, a Receita Federal americana, já rejeitou pedidos de outras empresas para aplicar o crédito a equipamentos e tecnologias comprovados e disponíveis comercialmente.
Andre Shevchuck, sócio da consultoria BPM, afirmou que considerar os data centers experimentais é “meio que algo absurdo e fora da realidade”. Shawn Marchant, responsável pela área de créditos e incentivos da Tanner, disse que seria cético quanto à aplicação do benefício a todos os chips de computador em todos os data centers.
A Meta consultou advogados, incluindo Jeffrey Moeller, do escritório Ivins, Phillips and Barker, e Alex Sadler, do Morgan Lewis. Moeller afirmou que as regras poderiam permitir o crédito para produtos já comprovados e disponíveis comercialmente se eles fossem necessários para resolver uma incerteza de um projeto. Sadler disse que modelos-piloto eram uma área de controvérsia e que o IRS não gosta quando empresas tratam produção comercial como pesquisa.
Após meses de deliberação, a companhia passou a classificar de forma diferente os chips destinados a data centers de IA e aqueles enviados a data centers convencionais. A EY, auditora da Meta, aprovou o plano e depois passou a orientar outras empresas sobre o uso do crédito na compra de chips para treinamento de IA.
A própria Meta reconheceu riscos em documentos enviados ao mercado. O valor reservado para cobrir possíveis perdas em disputas tributárias aumentou 45%, para US$ 18,74 bilhões (R$ 97,45 bilhões), ante US$ 12,9 bilhões (R$ 67,08 bilhões) dois anos atrás. O primeiro fator citado pela empresa foi a existência de incertezas relacionadas aos créditos tributários de pesquisa.
Andy Stone, porta-voz da Meta, disse que a empresa investiu US$ 200 bilhões (R$ 1,04 trilhão) em pesquisa e desenvolvimento nos últimos cinco anos, sendo US$ 57 bilhões (R$ 295,3 bilhões) no último ano. Ele afirmou que a companhia utiliza incentivos fiscais criados pelo Congresso americano para estimular investimentos no país.
Outras disputas tributárias
A Meta já enfrenta uma disputa com o IRS relacionada ao uso do mesmo benefício para subsidiar a remuneração de Zuckerberg. Em 2013, a empresa declarou que US$ 4,1 bilhões (R$ 21,24 bilhões) em opções de ações exercidas pelo executivo poderiam ser contabilizados como despesa de pesquisa. O IRS tenta recuperar US$ 355 milhões (R$ 1,84 bilhão) em economia tributária associada ao caso.
A companhia também enfrenta uma cobrança de quase US$ 16 bilhões (R$ 83,09 bilhões) em impostos e multas sobre lucros que, segundo a agência, foram transferidos dos Estados Unidos para as Ilhas Cayman.
Apple, Amazon, Alphabet e Microsoft também informam créditos tributários para pesquisa superiores a US$ 1 bilhão (R$ 5,19 bilhões) por ano. Nenhuma delas, porém, apontou o benefício como um risco em seus relatórios aos investidores ou informou se o utilizou para data centers de IA.
James Shannon, ex-deputado federal de Massachusetts que patrocinou a criação do crédito em 1981, disse que o benefício foi criado para apoiar pessoas, conhecimento e informação, e não para fabricar coisas. O Joint Committee on Taxation, órgão do Congresso americano, estimou que o crédito custaria US$ 32,1 bilhões (R$ 166,6 bilhões) ao governo em 2025. A Meta responderia sozinha por mais de um décimo desse valor.



