A devoção a Nossa Senhora ocupa um lugar amplo na cultura brasileira, de festas religiosas e irmandades a episódios ligados à política, ao cangaço e ao futebol. Em seu novo livro, Tantas Marias, o escritor e historiador Luiz Antonio Simas reúne diferentes invocações marianas e explica por que Nossa Senhora Aparecida se tornou a padroeira nacional.
A imagem de Aparecida foi encontrada em 1717, quando três pescadores retiraram do rio Paraíba do Sul primeiro o corpo e depois a cabeça de uma imagem de madeira de Nossa Senhora da Conceição. A pesca, segundo a tradição, tornou-se abundante depois do encontro.
O episódio também ganhou dimensão racial. A imagem, retratada como branca, apareceu escurecida na rede. Simas afirma que a identificação com uma “mãe preta” foi importante para a formação do culto entre a população negra, os trabalhadores escravizados e as classes populares. Irmandades como a de Nossa Senhora da Boa Morte também participaram do cristianismo popular no Brasil colonial.
Padroeira e identidade nacional
O reconhecimento institucional de Aparecida foi consolidado em 1930, quando o papa Pio 11 a oficializou como rainha e padroeira do Brasil. Antes dela, São Pedro de Alcântara ocupava o posto e estava associado ao imaginário da monarquia brasileira.
Para Simas, a devoção cresceu em um período de construção de uma identidade nacional ligada ao imaginário do Sudeste. O culto, porém, ultrapassou os ritos católicos e passou a aparecer na música, na poesia modernista e em enredos carnavalescos.
A popularidade da santa também está ligada a disputas religiosas. O historiador menciona a diferença entre adoração, atribuída a Deus pelos católicos, e veneração, dedicada a Nossa Senhora e aos santos. Ele afirma que há movimentos antigos para retirar Aparecida da condição de padroeira, citando um episódio de 1995, quando um bispo da Universal chutou uma imagem da santa.
A polêmica voltou ao debate após Flávio Bolsonaro ser acusado, sem evidências, de querer retomar um projeto de lei arquivado 18 anos antes que propunha revogar o título de padroeira. Simas disse ter ficado “um pouco surpreso” com a retomada do tema e viu nela uma disputa por espaço no mercado da fé entre setores evangélicos e a Igreja Católica.
Da seleção a Lampião
A devoção também chegou ao futebol. Na final da Copa do Mundo de 1958, a seleção brasileira perdeu no sorteio o direito de usar amarelo. Como a camisa branca carregava a lembrança da derrota de 1950, os jogadores vestiram azul, associado ao manto de Aparecida. O Brasil venceu a Suécia por 5 a 2 e conquistou seu primeiro título mundial.
Simas também cita Lampião, devoto de Nossa Senhora do Carmo. A literatura de cordel conta que, no dia de sua morte, ele estava sem o escapulário da santa e, por isso, teria sido impedido de entrar no céu e barrado no inferno.
O livro ainda reúne histórias sobre outras Marias. A Festa de Nossa Senhora da Penha, no Rio, combinava missas, capoeira e rodas de samba. Em 1937, uma imagem de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa foi retirada de uma igreja de Monte Sião (MG) por decisão de um bispo, que a considerou excessivamente feminina e sensual. Depois de uma seca de dois anos, a população exigiu o retorno da imagem, acompanhado por um temporal durante a procissão.



