PARIS — A agricultura francesa enfrenta uma combinação de queda nas exportações, avanço das importações, mudanças nos hábitos de consumo e impactos de eventos climáticos extremos. O superávit agroalimentar do país foi de 181 milhões de euros (R$ 1,07 bilhão) no ano passado, o menor resultado desde o fim dos anos 1970, segundo dados do governo.
A pressão atinge produtos associados à identidade gastronômica francesa, como vinho, queijo e pão. As exportações de vinho estão no menor nível em mais de 15 anos, enquanto a muçarela amplia seu espaço diante dos queijos locais. Um em cada dois frangos consumidos na França é importado.
O governo do presidente Emmanuel Macron acelerou a aprovação de uma lei de emergência, chamada por ele de parte de uma “guerra agrícola”. Entre as medidas estão a prioridade para produtos franceses nas escolas e o afrouxamento de regras para instalações pecuárias, uso de pesticidas e projetos de irrigação.
A ministra da Agricultura, Annie Genevard, anunciou um plano de ajuda de mais de 1 bilhão de euros (R$ 5,95 bilhões) para apoiar agricultores depois das perdas provocadas por ondas de calor e incêndios sucessivos neste verão, que corresponde ao inverno no hemisfério sul.
Vinhedos em retração
Vinhos e bebidas alcoólicas continuam sendo o principal produto agroalimentar de exportação da França, mas as vendas ao exterior caíram em 2026. O desempenho foi afetado pelas tarifas impostas por Donald Trump, pela desaceleração da demanda chinesa e pela redução do consumo de álcool. O clima extremo também contribuiu para uma das menores safras dos últimos 50 anos.
A França concentra um décimo dos vinhedos do mundo, mas perdeu um terço de sua área plantada nos últimos 50 anos. Para reduzir a capacidade de produção, elevar a qualidade e buscar preços maiores no futuro, o governo oferece ajuda financeira para que viticultores arranquem suas videiras.
Ao fim da campanha deste ano, cerca de 54 mil hectares terão sido arrancados. O custo total da medida chegou a 217 milhões de euros (R$ 1,29 bilhão) nos últimos dois anos, segundo o Ministério da Agricultura. Parte do vinho será destinada à produção de álcool em gel.
Produtos importados ganham espaço
As exportações francesas também sofrem com desacelerações econômicas e retaliações geopolíticas. Entre os exemplos estão a restrição chinesa às importações de conhaque francês e as tarifas aplicadas por Trump sobre garrafas de vinho.
Produtos italianos mais acessíveis avançaram no mercado. As exportações francesas cresceram 2% no ano passado, enquanto as italianas aumentaram 5%.
Em Rungis, nos arredores de Paris, cerca de 3 milhões de toneladas de frutos do mar, carnes, laticínios, frutas e legumes passam pelo mercado todos os anos. Quarenta por cento desses produtos vêm do exterior, e o local abastece 18 milhões de pessoas diariamente.
A Buisson, atacadista de queijos, pretende mudar para um espaço duas vezes maior dentro do mercado para acomodar o aumento da oferta italiana. A empresa, que importa muçarela de búfala, burrata e parmesão, vendeu mais de cinco toneladas de queijos italianos por dia em maio, contra pouco menos de duas toneladas seis anos atrás. Esses produtos já representam cerca de 40% do faturamento da companhia.
As importações de queijo, porém, não vêm apenas da Itália. Quase metade delas é originária da Alemanha, Holanda, Bélgica e Reino Unido, países que investiram em capacidade de processamento voltada à exportação.
Menos propriedades e sucessão ameaçada
O número de propriedades agrícolas francesas caiu 75% desde a década de 1970, para 390 mil. Segundo o Ministério da Agricultura, quase metade dos agricultores do país terá se aposentado em apenas quatro anos.
Como resposta, o governo adotou medidas para facilitar a entrada de jovens e novos agricultores, com simplificação da compra ou retomada de propriedades e melhorias no acesso a financiamento. Também prevê aumentar em 30% o número de estudantes de agricultura, em 30% o de engenheiros agrônomos e em 75% o de veterinários formados na França até 2030.
A sucessão preocupa produtores. Eric Thirouin afirmou que seu filho passou a questionar se deveria assumir a propriedade familiar de produção de trigo. “Estamos no centro da crise, porque estamos no período de colheita e precisamos enfrentar um calor extremo”, disse.
As condições climáticas ampliam a pressão sobre o setor. Cerca de 96,5 mil hectares já foram queimados na França neste ano, mais de duas vezes e meia a área total de 2025. Para Sébastien Abis, pesquisador associado ao IRIS, as mudanças indicam uma ruptura nas certezas tradicionais do país: “O mundo inteiro acelerou, enquanto talvez tenhamos ficado um pouco parados”.



