SÃO PAULO — O liquidante do Banco Master pediu ao Tribunal de Falências do Sul da Flórida a apreensão de três imóveis ligados a Daniel Vorcaro. As propriedades ficam em Miami e Aspen, no Colorado, e teriam sido compradas por mais de US$ 168 milhões (R$ 843 milhões) com recursos supostamente desviados do banco.
A petição foi apresentada nesta quarta-feira (7) pela EFB Regimes Especiais de Empresas, responsável pela liquidação do Master. O processo é movido contra a Clear River Properties e a Goldbeach Properties, empresas registradas em Delaware que são as proprietárias formais dos imóveis.
Em abril de 2024, a Clear River comprou por US$ 77 milhões (R$ 386 milhões) uma propriedade na Owl Creek Ranch Road, em Aspen. A Goldbeach adquiriu um imóvel na Sabal Palm Road, em Miami, por US$ 85,2 milhões (R$ 427 milhões), em janeiro de 2025, e outro do lado oposto da rua por US$ 6,9 milhões (R$ 34,6 milhões), no mês seguinte. Todas as compras foram feitas à vista, sem financiamento.
Fluxo dos recursos
De acordo com a ação, o dinheiro saiu do Master e passou por fundos e empresas no Brasil, nas Bahamas e nas Ilhas Cayman antes de chegar ao Mosaic Short Duration Fund, sediado nas Bahamas e criado em 2020. Entre fevereiro de 2023 e outubro de 2025, o fundo teria recebido mais de US$ 430 milhões.
Uma das rotas incluía o Liquidity Strategies Fund, que repassava recursos ao OGP LatAm investment. O dinheiro seguia para a Entre Investments and Arbitrage e depois para o Mosaic. O OGP e a Entre Investments são empresas de Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, apontado pelo liquidante como testa de ferro de Vorcaro.
Até fevereiro de 2023, o Master havia transferido US$ 187,5 milhões (R$ 940 milhões) ao Liquidity. Desse total, US$ 112,8 milhões (R$ 566 milhões) teriam seguido para o OGP. Outra rota passava pela Entre Investimentos e Participações, no Brasil, antes de chegar à Entre das Bahamas e ao Mosaic.
A petição também menciona fundos atribuídos a Benjamin Botelho de Almeida, dono da Sefer Investimentos. Por meio do Jaguar Multimarket Fund Ltd., das Ilhas Cayman, e do Phoenix Multimarket Fund, das Bahamas, teriam passado US$ 17 milhões (R$ 85,3 milhões) em fevereiro de 2024.
Os recursos teriam chegado aos Estados Unidos por um contrato de empréstimo de até US$ 350 milhões (R$ 1,7 bilhão) com a Mosaic Group, controladora formal da Clear River Properties e da Goldbeach Properties. O acordo foi assinado em 9 de abril de 2024, dois dias antes da compra do imóvel em Aspen e na mesma data em que o fundo recebeu US$ 76 milhões.
O liquidante considera o empréstimo uma operação de fachada. O contrato previa o início do pagamento apenas em abril de 2031 e fixava juros de 4% ao ano, que não teriam sido cobrados. A ação afirma ainda que a empresa descumpriu exigências contratuais, estava inadimplente e não foi cobrada.
Uso dos imóveis e próximos pedidos
Segundo a petição, Vorcaro assinou pessoalmente o contrato de compra da casa de Aspen, em março de 2024, e depois transferiu o acordo para a Clear River. Ele também teria firmado contratos de aluguel de dez anos, com opção de compra, que garantiam o uso exclusivo das propriedades. O liquidante não localizou pagamentos de aluguel.
As transferências teriam continuado após o Banco Central decretar a liquidação do Master, em 18 de novembro de 2025. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, a conta da Mosaic no Bank of New York Mellon enviou US$ 37,5 milhões às duas empresas. Os dois últimos repasses, de US$ 5,5 milhões cada, ocorreram nos dias 11 e 23 de março, depois da segunda prisão de Vorcaro, em 4 de março.
Somadas as compras, obras e demais despesas, os repasses identificados chegaram a cerca de US$ 107 milhões para a Clear River e US$ 120,5 milhões para a Goldbeach.
O liquidante pediu que a Justiça dos Estados Unidos reconheça que os imóveis pertencem à massa do banco ou determine a devolução de ao menos US$ 77 milhões pela Clear River e US$ 92,5 milhões pela Goldbeach. Também solicitou a proibição de venda dos bens e a nomeação de um administrador judicial para as propriedades.
A defesa de Daniel Vorcaro não havia se manifestado até o momento. Representantes e empresas de Antônio Carlos Freixo Junior e Benjamin Botelho de Almeida também não responderam aos contatos.



