A eleição geral de 4 de outubro deve colocar frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os dois aparecem empatados nas pesquisas, em uma disputa marcada por rejeição, dificuldades econômicas e conflitos institucionais.
Lula, de 80 anos, busca novo mandato após retornar à Presidência em 2023. Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos por tramar um golpe depois de perder a reeleição em 2022. Flávio defende o perdão do pai e o impeachment dos ministros do Supremo Tribunal Federal que participaram de sua condenação.
O vencedor indicará quatro dos 11 ministros do Supremo, com potencial para influenciar a instituição por uma geração. A eleição também definirá a posição do Brasil diante do governo de Donald Trump, que vem ampliando sua atuação política e econômica na América Latina.
Riqueza e baixo crescimento
O Brasil reúne reservas de energia, alimentos e minerais. Em agosto, a Petrobras descobriu petróleo na Margem Equatorial, na costa nordeste da América do Sul. A produção deve se somar aos campos do pré-sal, na costa leste do país.
Fontes renováveis respondem por 89% da eletricidade brasileira, principalmente por meio de hidrelétricas. A energia eólica e a solar cresceram a ponto de a rede não conseguir absorver toda a produção em alguns momentos. O excedente poderia ser usado por data centers e pela produção de aço de baixo carbono e combustíveis limpos para aviação e navegação.
O país também é líder em carne bovina, café, algodão, suco de laranja, soja e cana-de-açúcar. Neste ano, deve ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo. O Brasil tem ainda a segunda maior reserva mundial de terras raras, minerais usados em produtos de alta tecnologia.
Essa disponibilidade de recursos ajudou o país a atrair US$ 77 bilhões em investimento estrangeiro direto no ano passado, atrás apenas da China e à frente da Índia, que recebeu US$ 39 bilhões.
Apesar disso, juros reais de 9% pressionam empresas e famílias. Cerca de 9 milhões de empresas estão inadimplentes, contra 4 milhões uma década atrás. O pagamento de dívidas consome 30% da renda média das famílias, de acordo com a Tendências, consultoria de São Paulo.
A dívida pública está próxima de 100% do PIB, enquanto o déficit supera 9% do PIB. O governo gasta com juros uma parcela do PIB maior que a de qualquer grande país, exceto Egito e Paquistão. Economistas esperam crescimento anual médio de cerca de 1% em 2027 e 2028.
Pressão sobre o orçamento
Durante seus mandatos, Lula ampliou transferências de renda e crédito subsidiado. Em 17 de setembro, elevou em 15% os pagamentos do Bolsa Família. A política ajudou a manter o consumo e o desemprego baixo, mas a produtividade ficou estagnada.
A indexação de aposentadorias e benefícios ao salário mínimo aumenta a despesa pública. Cada elevação de um real no salário mínimo mensal acrescenta R$ 400 milhões ao gasto anual. Hoje, 90% do orçamento federal está comprometido com despesas obrigatórias, principalmente aposentadorias. Na trajetória atual, não sobrará dinheiro para gastos discricionários até 2029.
O Brasil gasta 10% do PIB com aposentadorias e investe 18% do PIB. Também há pressão dos salários do funcionalismo. Ministros do Supremo recebem R$ 46.366,19 por mês, mas mais de 67 mil servidores ganham acima desse valor por causa de benefícios não tributados. O rendimento médio de juízes e promotores chega a 48 vezes o valor nacional.
Benefícios fiscais custam 7% do PIB por ano, ante 2% em 2003. A sucessão de governos também transferiu a parlamentares o controle de um quarto do gasto discricionário, usado em redutos eleitorais com pouca fiscalização.
Escândalo e disputa política
O colapso do Banco Master ampliou a crise institucional. O banqueiro Daniel Vorcaro, dono da instituição, organizava festas para políticos e juízes. Em uma festa de Halloween, compareceram 120 mulheres e 20 homens. Depois de ser preso tentando fugir em um jato particular em novembro passado, teve oito celulares vasculhados pela Polícia Federal.
Mensagens indicariam relações entre Vorcaro e integrantes do Supremo. O banqueiro teria pago uma acompanhante para um ministro, comprado uma participação de US$ 4 milhões em um hotel de outro e contratado familiares de outros dois ministros. Davi Alcolumbre, presidente do Congresso, negou ter relação com uma mensagem atribuída a uma conversa sobre o banqueiro.
Flávio afirmou que nunca havia conhecido Vorcaro, mas uma gravação divulgada em maio mostra os dois conversando. Segundo o conteúdo apresentado, ele chama o banqueiro de “meu irmão” e pede dinheiro para um filme sobre o pai. Foram repassados R$ 65 milhões, em sua maior parte para uma conta ligada a Eduardo, irmão de Flávio.
Lula não foi implicado no caso Banco Master, mas integrantes de seu partido foram. Seu filho é investigado por tráfico de influência.
Flávio promete alinhamento estreito com Trump, castração química para estupradores e mudanças na política de terras raras. Lula fala em defesa, inteligência artificial, data centers e desenvolvimento de uma cadeia produtiva de minerais, mas não apresentou um plano considerado crível para equilibrar as contas públicas.
O próximo Congresso deve ser dominado por partidos de direita, dificultando a aprovação de reformas. Os dois candidatos precisariam negociar apoio parlamentar para avançar suas agendas. Ao mesmo tempo, o Supremo e o Congresso estão envolvidos no conflito sobre investigações, impeachment e o escândalo do Banco Master.
A sociedade civil, a imprensa e a Polícia Federal continuam atuando nas investigações. Ainda assim, a próxima Presidência deve começar sob forte pressão fiscal e institucional, sem apoio claro para mudanças profundas.



