O grupo Hypers Kids Africa afirmou que devolverá os 120 milhões de tokens $B22 recebidos por publicar um vídeo de apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL). A decisão foi anunciada depois de uma reação negativa do público, segundo o próprio grupo.
A organização, formada por crianças e jovens de Uganda, disse que os ativos digitais valem atualmente cerca de US$ 20 mil. A expectativa era usar o recurso para concluir a construção da casa do grupo. Não foram informados o prazo, o método de devolução ou quem negociou e aprovou a parceria.
“Vamos devolver os tokens a eles, para pedir desculpas a todos”, afirmou o grupo. Em outra mensagem, disse que não pretende se envolver em política e que sua atuação é voltada à dança e ao entretenimento.
Vídeo e reação da campanha
Publicado na noite de quarta-feira (7/10), o vídeo mostra crianças dançando com camisetas amarelas ao som de uma música que repete o número 22 e o sobrenome Bolsonaro. Até o início da noite de quinta-feira (8/10), a publicação acumulava mais de 3,5 milhões de visualizações.
A legenda declarou apoio a Flávio Bolsonaro, ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e ao influenciador Pablo Marçal. A página do grupo tem 12,9 milhões de seguidores no Instagram.
A equipe jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que adotará medidas judiciais nas áreas eleitoral, cível e criminal para retirar do ar o site que oferece os tokens. A campanha disse desconhecer a autoria da página e afirmou não ter relação com o conteúdo ou com a venda dos ativos digitais.
Também declarou que não contratou perfis para fazer propaganda de produtos ou conteúdos e que seus canais oficiais foram informados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A assessoria de Nikolas Ferreira afirmou desconhecer o conteúdo. Pablo Marçal foi procurado e não respondeu.
Como funciona a $B22
A Brasil 22 Token (B22) foi lançada na terça-feira (6/10). O site responsável afirma que parte das vendas da $B22 financiará projetos para crianças em Uganda e que a iniciativa pretende ajudar o grupo a concluir uma casa em Kampala.
A página também anunciou a distribuição de tokens a usuários que compartilhassem conteúdos favoráveis ao voto em Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, declarou que a entrega seria independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral.
O site afirma não ser oficial, não ter endosso nem vínculo com político, partido, candidatura ou campanha, e não constituir doação eleitoral. Em outro aviso, classifica a $B22 como uma memecoin criada pela comunidade, sem valor intrínseco ou garantia de retorno financeiro, e alerta que os investidores podem perder todo o valor aplicado.
No X, a Brasil 22 Token informou que pretendia integrar o Pix nos próximos dias para permitir a compra da moeda. Também disse ter mais de 20 criadores de conteúdo com vídeos prontos para publicação e que a distribuição continuaria diariamente até 25 de outubro.
Avaliação sobre a legislação eleitoral
Para Raimundo Fernandes Neto, doutor em Direito Constitucional e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), a estrutura pode reunir elementos de ilegalidade eleitoral. Segundo ele, o modelo combina uma criptomoeda cujo valor depende da interação social, influenciadores e propaganda eleitoral.
O advogado afirmou que a legislação proíbe o uso de influenciadores remunerados e avaliou que a valorização dos tokens poderia funcionar como forma indireta de pagamento a quem publica ou republica o conteúdo. Também disse que o uso da moeda para financiar ou beneficiar candidaturas pode ser vedado, mesmo sem pagamento direto.
Fernandes Neto comparou a dinâmica ao esquema de campeonatos de cortes de vídeos de Pablo Marçal nas eleições de 2024. Marçal foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico, e, em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve sua inelegibilidade por oito anos na ação relacionada ao concurso de cortes.
Uma resolução do TSE proíbe pagamentos a perfis no exterior para a publicação de propaganda eleitoral favorável a candidatos brasileiros. As regras permitem a participação gratuita de influenciadores, sem impulsionamento, mas impedem que candidatos, partidos e federações contratem, premiem ou ofereçam benefícios, inclusive indiretos, a quem publique propaganda.
O TSE afirmou que não se manifesta sobre temas ou casos que possam ser ou estejam sendo analisados pela Justiça Eleitoral.


