O modelo econômico de Javier Milei, apresentado pelo campo bolsonarista como referência para o Brasil, reduziu a inflação argentina, mas aumentou a dependência do país de financiamento externo e trouxe perdas para trabalhadores, famílias e empresas. A avaliação considera que as medidas não são replicáveis no Brasil, que enfrenta uma inflação muito menor e uma estrutura fiscal diferente.
Quando Milei foi eleito, a inflação da Argentina havia chegado a 211% em 2023. No Brasil, o índice está em torno de 4,6%. A estratégia argentina se baseou na eliminação rápida do déficit primário, na administração do câmbio como instrumento contra a inflação e em cortes de gastos acompanhados de ampla desregulamentação.
Cortes, inflação e dívida
O ajuste argentino reduziu despesas com infraestrutura, ciência e universidades públicas. Também diminuiu o valor real das aposentadorias e dos salários do setor público por meio da inflação. Ao mesmo tempo, o governo reduziu impostos dos mais ricos e criou benefícios fiscais para grandes investimentos, principalmente em commodities.
A inflação acumulada em 12 meses recuou para 33,5%, mas ficou distante da promessa de uma taxa mensal abaixo de 1% em meados de 2026. A queda foi ajudada por um câmbio mais valorizado, sustentado em parte por financiamento externo.
A Argentina deve hoje US$ 57 bilhões ao FMI, somando um novo empréstimo ao valor tomado em 2018 e 2019. O país não conseguiria pagar esse montante no cronograma atual e deve continuar dependente do fundo por muitos anos.
Em 2025, o peso sofreu duas corridas. Na primeira, em abril, o FMI concedeu um empréstimo de US$ 20 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões já haviam sido desembolsados. Na segunda, antes das eleições legislativas de outubro, o Tesouro dos Estados Unidos interveio para sustentar o câmbio.
Perda de renda e retração da economia
Os salários reais caíram quase 8% desde a posse de Milei, enquanto o desemprego passou de 5,7% para 7,9%. A informalidade aumentou, com trabalhadores desempregados ocupando postos de baixa remuneração no setor de serviços.
A inadimplência das famílias atingiu 12,8% dos empréstimos bancários, ante 4,5% um ano antes. O percentual equivale a 6 milhões de argentinos, mais de um quarto dos tomadores de crédito.
O investimento caiu 11,1% no segundo trimestre, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O Produto Interno Bruto recuou 0,6% no segundo trimestre em relação ao primeiro, e a atividade econômica diminuiu 2,9% em julho ante o mês anterior. A projeção de crescimento do ano foi revisada para baixo pelo JPMorgan, e uma nova contração no terceiro trimestre colocaria a Argentina em recessão técnica.
Diferenças em relação ao Brasil
No Brasil, a falta de espaço fiscal é atribuída principalmente ao custo do serviço da dívida, próximo de 9% do PIB, em razão dos juros reais elevados, e não ao resultado primário. Por isso, a estratégia de corroer despesas públicas com inflação não seria replicável em um ambiente de inflação baixa.
A prioridade econômica do governo Lula é elevar a renda real dos trabalhadores, criar empregos de melhor qualidade e reduzir os juros para estabilizar a relação entre dívida e PIB. A expectativa é abrir espaço para o investimento e ampliar a capacidade produtiva sem pressionar a inflação.
O Brasil quitou integralmente sua dívida com o FMI em 2005 e não recorre ao fundo desde então. A comparação entre os dois países coloca em disputa, no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, projetos econômicos distintos: um voltado a uma base produtiva diversificada e inovadora; outro associado a maior dependência de commodities, retração do mercado interno e apoio externo dos Estados Unidos.



