O consumo das famílias, responsável por 63% do Produto Interno Bruto (PIB), perdeu força e deve registrar neste ano e no próximo o menor crescimento desde a pandemia. Economistas estimam avanço de cerca de 1% neste ano e abaixo desse nível no ano que vem, com possibilidade de estagnação em cenários mais pessimistas.
A desaceleração ocorre após uma alta média de 3,3% entre 2021 e 2025. O consumo avançou 3% em 2021, 4,1% em 2022, 3,2% em 2023 e 5,1% em 2024. Em 2025, com uma base de comparação mais forte, o crescimento foi de 1,3%.
Endividamento limita as famílias
O gasto com bens e serviços vem sendo contido pelo endividamento e pelo comprometimento elevado da renda. Em julho, esses indicadores estavam em 49,9% e 28,7%, respectivamente, segundo o Banco Central. O crédito para pessoas físicas também tende a perder velocidade.
A relação entre dívida e PIB chegou a 82,9% em agosto, o maior patamar em cinco anos. Com a necessidade de conter essa relação, o impulso fiscal deve diminuir no ano que vem.
O consumo das famílias recuou 0,4% no segundo trimestre, na comparação com os três primeiros meses do ano. Economistas também veem risco significativo de nova queda no terceiro trimestre.
Para Felipe Camargo, economista da Oxford Economics, o enfraquecimento do consumo é o principal fator por trás da revisão das expectativas para a economia. O Boletim Focus, do Banco Central, passou a indicar expansão de 1,41% para a atividade no ano que vem, ante 1,80% no começo do ano.
Camargo afirma que o mercado de trabalho não deve repetir o ritmo de geração de vagas observado nos últimos anos, depois de uma queda de 10 pontos percentuais na taxa de desemprego.
Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público do FGV Ibre, calcula que o consumo per capita cresceu 0,67% entre o quarto trimestre de 2025 e o mesmo período de 2024. Entre o segundo trimestre deste ano e o mesmo período de 2025, a alta foi de 0,07%.
Investimento pode ganhar espaço
Natália Cotarelli, economista do Itaú Unibanco, estima crescimento de 1,1% para o consumo neste ano e no próximo. Para ela, o mercado de trabalho ainda dará sustentação mínima em 2027, embora a taxa de desemprego deva subir para 6,2%.
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre, avalia que o modelo apoiado em estímulos do governo e no consumo das famílias se esgotou. Ela projeta alta de 0,9% para o consumo em 2027. “PIB liderado pelo consumo não é sustentável”, afirmou.
Luís Fernando Cezario, economista-chefe da Asset 1, prevê para o PIB uma variação entre recuo de 0,1% e alta de 0,3% em 2027. Para o consumo, a estimativa varia de estagnação a crescimento de 0,5%, conforme o esforço fiscal do próximo presidente da República.
Com a perda de força do consumo, investimento e exportações devem ganhar participação na sustentação da atividade, embora não compensem totalmente a desaceleração. Camargo vê espaço para investimentos em infraestrutura portuária relacionados à exploração da Margem Equatorial e para aportes em data centers.
Para Cotarelli, o investimento pode contribuir para um crescimento mais equilibrado, mas isso depende da queda dos juros. Camargo avalia que um consumo mais fraco pode abrir espaço para a redução dos juros e favorecer as empresas, impulsionando os investimentos.



