A entrada de 13 milhões de mulheres que hoje se dedicam exclusivamente aos afazeres domésticos e de cuidados poderia acrescentar R$ 284 bilhões à economia brasileira em 2025. O valor equivale a 2,2% do PIB, segundo estudo das pesquisadoras Isabela Duarte Kelly e Hildete Pereira de Melo, da FGV (Fundação Getulio Vargas).
O cálculo considera mulheres com idade inferior a 65 anos que estão fora da força de trabalho por causa das responsabilidades com filhos, casa e família. A estimativa usa dados da PnadC (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua) de 2025, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e projeta quanto elas receberiam caso obtivessem um emprego, considerando a escolaridade média do grupo.
O valor representa o ganho líquido calculado pelas pesquisadoras. A estimativa bruta chega a R$ 320,3 bilhões, mas subtrai R$ 36 bilhões referentes a benefícios que deixariam de ser recebidos, como o Bolsa Família, na hipótese de que a entrada no emprego substituísse o programa.
Trabalho doméstico e acesso a serviços
Hoje, 47% das mulheres estão fora da força de trabalho, o equivalente a 42,8 milhões. As 13 milhões que apontam os afazeres domésticos e de cuidados como principal impedimento para trabalhar dedicam, em média, 32 horas semanais a essas atividades, sem remuneração.
A maioria tem ensino médio completo. Para estimar a renda potencial, o estudo adotou os rendimentos médios de mulheres com o mesmo nível de instrução. Em 2025, esse grupo recebia, em média, R$ 2.162 mensais. As pesquisadoras observam que a escolaridade não é o único fator que define os salários, mas consideram a simulação útil para dimensionar o impacto econômico da divisão desigual do trabalho.
Segundo Isabela Duarte Kelly, a participação feminina na força de trabalho permanece praticamente estável há quase 15 anos. Em 2012, o percentual era de 52%; em 2025, chegou a 53%. Para a economista, são necessárias políticas que permitam conciliar as responsabilidades familiares com uma ocupação remunerada.
Entre as medidas citadas estão o acesso dos filhos a creches e escolas de tempo integral e a criação de centros-dia para idosos. A pesquisadora afirma que políticas de transferência de renda são necessárias para mulheres que não conseguem entrar no mercado, mas não devem ser a solução definitiva.
Diferenças entre grupos
O levantamento mostra que pretas e pardas são maioria entre as 13 milhões de mulheres que permanecem em casa por causa das tarefas de cuidado. Em 2025, a participação feminina na força de trabalho era de 48% na região Norte e de 45% no Nordeste.
No mesmo ano, 53% das mulheres estavam na força de trabalho, contra 72% dos homens. Entre eles, 740 mil apontaram os afazeres domésticos e de cuidados como principal razão para permanecer fora do mercado.
Para Isabela, os efeitos da inserção feminina não se limitariam à igualdade de gênero. A mudança poderia afetar a renda das famílias e a Previdência Social. “Nossa autonomia está ligada à autonomia financeira”, afirmou a economista.



