Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno das eleições de 2026, mas o número não permite concluir que todos sejam desinteressados pela política, segundo o cientista político Jairo Nicolau, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Autor do livro O País Dividido, Nicolau afirma que a abstenção reúne pessoas com situações distintas. Entre elas estão eleitores que não são obrigados a votar, pessoas que vivem longe do domicílio eleitoral, cidadãos com problemas de cadastro e eleitores que não conseguiram chegar à seção por questões de saúde ou deslocamento.
Uma pesquisa Datafolha mostrou que viagem foi o motivo mais citado para a ausência no primeiro turno, com 19%. Na sequência aparecem problemas de saúde, com 18%, desinteresse, com 13%, e trabalho, com 9%.
O pesquisador diz que não é possível saber quantos eleitores deixaram de votar especificamente por falta de interesse. “A gente não sabe porque não há pesquisa”, afirmou. Segundo Nicolau, os levantamentos costumam se concentrar nas intenções de voto, e não nas razões da ausência.
Abstenção no primeiro turno
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, mais de 33,4 milhões de eleitores não foram às urnas. O grupo representou 21,08% do eleitorado apto a votar, o maior percentual desde 1998. Em 2022, a taxa havia sido de 20,9%.
Nicolau esperava uma pequena alta neste ano, diante do menor engajamento que identificava durante a campanha. O percentual, porém, ficou próximo do registrado em 2022. “É um voto obrigatório no papel, mas está se tornando um voto facultativo na prática”, disse.
Para o pesquisador, a facilidade para justificar a ausência pelo celular e o baixo valor da multa eleitoral, de R$ 3,70, reduzem o efeito prático da obrigatoriedade. Ele não defende o aumento da multa e afirma que é mais importante compreender os diferentes motivos que levam o eleitor a não votar.
Diferenças entre as regiões
A análise de Nicolau dividiu os municípios em cinco grupos, conforme o tamanho do eleitorado, e depois separou as cidades por região. Cada grupo reúne aproximadamente 20% dos eleitores do país, ou cerca de 31 milhões de pessoas.
O Nordeste teve a menor taxa de abstenção em 2026, de 18,4%, seguido pelo Norte, com 19,4%. Os maiores percentuais foram registrados no Sudeste, com 22,7%, e no Centro-Oeste, com 21,7%.
O Sudeste concentrou 15,1 milhões dos 32,9 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no país, sem considerar os eleitores que estavam no exterior. No Nordeste, a abstenção caiu de 19,5%, em 2022, para 18,4% em 2026. O número de pessoas que compareceram às urnas na região aumentou em 1,4 milhão na comparação entre as duas eleições.
Os dados precisam ser analisados com cautela, segundo Nicolau. Em 2026, 716 municípios tinham mais eleitores cadastrados do que habitantes. A situação pode distorcer as taxas de abstenção quando pessoas mudam de cidade sem transferir o título ou quando eleitores mortos continuam no cadastro eleitoral.
Jovens e idosos entre os ausentes
Os dados detalhados sobre o perfil social dos eleitores que não votaram em 2026 ainda não foram divulgados. Para analisar os grupos mais presentes entre os ausentes, Nicolau recorreu às informações das três eleições anteriores reunidas em O País Dividido.
O estudo destaca jovens de 18 a 29 anos, faixa em que o voto é obrigatório, e pessoas com 70 anos ou mais, especialmente mulheres com baixa escolaridade, que não são obrigadas a votar.
No primeiro turno de 2022, 7,7 milhões de eleitores de 18 a 29 anos não votaram. Desse total, 4,3 milhões eram homens e 3,5 milhões eram mulheres. Nicolau também chamou atenção para jovens que tiram o título aos 16 ou 17 anos, quando o voto é facultativo, mas deixam de comparecer às urnas.
Entre os eleitores ausentes nas eleições anteriores, cerca de três em cada dez não eram obrigados a votar. O grupo inclui pessoas com 70 anos ou mais e analfabetos de qualquer idade. Em 2022, aproximadamente 4,5 milhões de mulheres com 70 anos ou mais, analfabetas ou com escolaridade até o ensino fundamental, não foram às urnas.
O pesquisador relaciona parte dessas ausências a dificuldades de locomoção, problemas de saúde e distância até os locais de votação. Também há pessoas que deixaram de votar há muitos anos e continuam registradas no cadastro eleitoral. Por isso, ele afirma que não é possível tratar todos os ausentes como eleitores que rejeitaram a política ou os candidatos.



